A Dança de Santa Cruz em Itaquá

Histórias de Itaquaquecetuba

Coluna do historiador Cláudio Sousa / Foto: Divulgação

Na noite de 2 para 3 de maio, no Largo da Matriz de Nossa Senhora da Ajuda de Itaquaquecetuba (atual Praça Padre João Álvares), era realizada a Dança de Santa Cruz. Às 9 horas da noite o “povo da vila e os caboclos das redondezas” concentram-se em volta do Cruzeiro. A maioria é de pessoas simples, de pé no chão, pouca gente de gravata, mulheres enroladas em xales. Também há moças e rapazes, que flertam discretamente, o jornal Correio Paulistano de 8/05/1949 estampou “Reminiscências de uma festa indígena em Itaquaquecetuba”.

O Cruzeiro brilhando com seus degraus cheios de velas. Na casa da festa, há café com farinha, biscoitos, pipoca e quentão nas chaleiras fumegando para os que vêm de mais longe. Câmara Cascudo dizia que o folclore brasileiro é por excelência alimentar. De vez em quando é disparado um rojão. Os violeiros circulam no meio do povo, que os admira: “Comé seu Joaquim, tá temperada a viola? Pinica aí uma moda”. O festeiro ou a pessoa responsável pela organização do folguedo é Narciso da Cunha Lobo, que “numa calma enervante” circula entre o povo: “Num farta rojão? Já chego todo mundo? Ói, tirada a reza, o feijão tá no fogo lá em casa. É pra comê.”

A festa, considerada muito antiga, é uma mistura de elementos indígenas (dança de roda) e o canto litúrgico introduzido pelos padres jesuítas. A festa é dividida em duas partes. A primeira parte acontece na Igreja, com a realização da missa católica, na manhã do dia 2; ao anoitecer acontece a reza na Igreja, conduzida pelo padre. A outra parte da festa começa pela reza conduzida por um capelão caboclo, em frente ao Cruzeiro. Ajoelham-se o Mestre ou Capelão Joaquim Araujo Marques, caboclo que há muitos anos vem “tirando” a reza; à esquerda fica o ajudante Benedito Alves Camargo; atrás vêm dois rezadores que ajudam a repartir a reza, são chamados de Repartidores. O Capelão puxa os cantos: “Gloriosa Santa Cruz/ Nossa Mãe e padroeira/ Com sua divina graça/ Consolai o mundo inteiro. Santa Cruz desceu do céu/ Junto com a Virge Maria/ Aceite esta devoção/ Esta nossa romaria (…)”.

Depois, segue-se a lamentação: “Adoro meu Jesus/ Desde a hora que nasceu/ Pela ostia consagrada/ Lá na cruiz onde morreu”(…). Em seguida, o Capelão, o Ajudante e os Repartidores levantam-se e postam-se de lado, convidando o povo para beijar o pé do Cruzeiro, enquanto cantam o Capelão e o Ajudante.

À meia noite iniciam-se as danças e cantos na frente de cada casa que ostentar uma cruz rústica ou decorada, na fachada. Os dançadores, homens e mulheres com mais 40 anos, vão de casa em casa seguindo em duas colunas atrás dos violeiros cantadores. A dança vira a madrugada, podendo se estender até o meio dia.

A Festa de Santa Cruz de 1949 foi registrada por uma equipe de pesquisadores do Centro de Pesquisas Folclóricas “Mário de Andrade”, do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Em 1937, uma equipe enviada por Mário de Andrade, sob a direção de Oneyda Alvarenga, documentou a Dança de Santa Cruz. Numa nota, o jornal O Estado de São Paulo citou a festa na edição de 6 de maio de 1913.

Gazeta Regional

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