Artista visual de Itaquá usa o desemprego para exaltar mulheres em pinturas

A artista visual Gabriela Sales usa o talento para valorizar a figura feminina em seus quadros

Especial de Jéssica Lima para a GAZETA / Foto: Divulgação

Estar desempregado(a) pode ser um mártir para alguns, mas para outros é a oportunidade de colocar em prática todo o potencial criativo que um emprego tido como padrão talvez dificulte.

Foi assim que a artista visual Gabriela Sales, 22, descobriu sua paixão por pintar quadros que exaltem a figura feminina. Sales se formou no meio do ano passado em artes visuais e procurou emprego dentro e fora da área, mas não encontrou.

“Se ver desempregada, sem CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), é muito complicado porque o sistema faz você crer que ser bem sucedida é trabalhar dentro de uma empresa nesse formato”, contou a artista.

Mas sua frustração tem raízes mais profundas e que vão além da própria Gabriela e de sua área de formação: a cidade de Itaquaquecetuba, onde mora, não fechou 2018 com boas perspectivas de emprego se comparado ao ano anterior.

Segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), Itaquá gerou 874 vagas de emprego formal ante a 1.886 em 2017, sendo a cidade do Alto Tietê que mais gerou empregos naquele ano.

Com melhores posições em 2018, Suzano se destaca em primeiro, com 2.745 empregos e Mogi das Cruzes em segundo, com 1.861. Das oito cidades do Alto Tietê, Itaquá foi a única que regrediu na criação de novos empregos de 2017 para 2018 e ficou em terceiro lugar.

Outro dado que chama a atenção é que de 2011 a 2017, as contratações em Itaquá foram majoritariamente no setor do comércio, mas em 2018 perdeu o posto para a área de serviços e viveu seus piores momentos de 2014 a 2016, durante a crise econômica, fechando os três anos no negativo.

A artista visual ingressou no curso de pedagogia em 2015, mas não gostou e dias depois mudou para artes visuais. “Depois de três dias me vi dentro do curso de artes por indicação de uma amiga e foi só coisa linda, me encontrei”, relatou.

“Fiz alguns trabalhos dentro da sala de aula que me ajudaram financeiramente e, no último ano da faculdade, consegui lecionar como educadora no fundamental 1 de uma escola particular em Itaquá.” Gabriela também agradece à família por ter dado suporte antes, durante e depois de formada.

A LOJA – No meio de 2018, com o diploma e desempregada, Gabriela Sales, que jurou só trabalhar com questões teóricas da arte, viu a prática e a produção lhe acolherem.

Ela e uma amiga que trabalha na área de recursos humanos, a Stefany Enésio, 22, abriram uma lojinha virtual pelo Instagram chamada Espaço 612 (@espaco612) com o propósito de ter algo artesanal e com suas identidades.

A artista chegou a desenhar natureza morta e desenhos geométricos, mas trabalha basicamente com a figura humana e já pintou mulheres como Elza Soares, Angela Davis, Marisa Monte, Maria Bethânia, Amy Winehouse, Nina Simone, Cassia Eller, Marina Abramovic e Lauryn Hill. “Fiz pessoas comuns também, mas não tenho ideia de quantos quadros já desenhei.”

Ela acredita que suas obras vão além de um artigo de decoração. “Acho importantíssimo que nós mulheres conheçamos nossas iguais, aquelas que escreveram, pintaram e desenharam, que enfrentaram o sistema com a sua produção com o seu toque poderoso.”

A criação é toda manual e pode demorar horas ou dias. “Eu entro com a parte prática, que é o desenho/stencil, e minha amiga entra com o suporte, que são as camisetas e o design.”

Para a artista, ser autônoma não é fácil, mas diz que está no processo de valorizar seu trabalho e acreditar em seu potencial. Ela conta que a escolha por pintar mulheres veio de “um anseio pelo feminino e do desejo de exaltar vítimas de uma sociedade patriarcal e injusta”.

“Somos pouco divulgadas e valorizadas enquanto mulheres que produzem algo e é esse o viés do negócio, é a ideia de mostrar as mulheres, de deixar claro que estamos aqui e produzimos coisas de qualidade”, explicou.

Como artista visual, suas referências são de mulheres consagradas dentro da história da arte no que diz respeito a repertório visual e composição estrutural, mas ressalta que seu traço é livre.

Apesar disso, por uma questão ideológica e de referência conceitual, Guerrilla Girls tem um papel fundamental no seu processo, que é um grupo de artistas feministas anônimas que tem por objetivo combater o sexismo e o machismo no mundo da arte.

Com canetões, caneta simples, lápis, carvão, tintas, spray e nanquim, ela trabalha em quase qualquer suporte. “Posso fazer em camisetas, bolsas, parede, móveis, mas o principal são os quadros.”

O trabalho de Gabriela Sales / Foto: Divulgação

Seu único ritual para a criação é de que o ambiente esteja limpo. “Não consigo prestar atenção necessária no desenho se meu quarto estiver bagunçado ou se a mesa estiver desorganizada.”

As encomendas podem ser feitas pela página da lojinha no Instagram (@espaco612) e a entrega acontece pessoalmente (em alguma estação de trem ou metrô) ou por correios. O preço varia: as camisetas saem por R$ 40 e os quadros de 30×20, dependendo da quantidade de materiais usados, custam R$ 25.

Para Gabriela, a arte ainda é elitizada e desvalorizada. “Isso é fruto de um sistema que não visa o bem estar e a evolução dos sentimentos humanos, nem o desenvolvimento do senso crítico. Essa desvalorização existe não só no meio artístico, mas em questões como a educação básica também”, concluiu.

OUTRO LADO – A reportagem procurou a Acidi (Associação Comercial e Industrial de Itaquaquecetuba) para comentar os números de empregabilidade divulgados pelo Caged e, por meio de nota, a entidade disse que “considera os números de emprego de 2018 positivos, apesar de serem inferiores aos de 2017” e esclarece que a cidade iniciou, em 2018, uma recuperação no emprego, pois entre 2014 e 2017 perdeu mais de 5,8 mil empregos.

Segundo o presidente da Acidi, Luciano Dávila, a atual gestão do prefeito Mamoru Nakashima (sem partido) não tem políticas públicas voltadas para a geração de empregos e a dificuldade em concluir obras públicas, a falta de serviços básicos e de manutenção afastam investidores.

Já a Prefeitura de Itaquaquecetuba respondeu também, por meio de nota, que o alto índice de empregos gerados em 2017 não foi apenas devido a instalação do Itaquá Garden Shopping e que, naquele ano, novas indústrias e atacadistas se instalaram na cidade. “Itaquaquecetuba foi a 16ª cidade do país que mais gerou empregos, a 4ª no Estado e a 1ª no Alto Tietê”, diz a nota.

Ainda segundo a gestão de Mamoru, a queda na geração de empregos para 2018 já era esperada devido à crise nacional vivida pelo país e que afetou principalmente as micros e pequenas empresas. “Mesmo assim, Itaquá foi a 3ª colocada na região, um resultado considerado positivo diante da crise política e econômica do Brasil.”

Para este ano, a prefeitura acredita que há expectativa de que as mudanças promovidas no âmbito econômico pela nova gestão federal surtam efeitos e que a geração de empregos seja ampliada no município. “A política implantada pela atual administração visa facilitar e incentivar a instalação de novas empresas, comércios e indústrias na cidade.”




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