Cadeirantes e a luta por uma Itaquaquecetuba mais acessível

Cadeirantes de Itaquá buscam por meio da Justiça mais acessibilidade e menos obstáculos nas ruas da cidade

 

Por Gabriel Dias / Foto: Bruno Arib

Na tarde de quarta-feira (19), por volta das 14h, Valdenira Farias Paiva, de 52 anos, subia o único elevador do Fórum de Itaquaquecetuba para prestar depoimento ao promotor de Justiça. Dentro de uma sala cheia de papeis distribuídos em várias mesas, Valdenira ficou cerca de duas horas diante da autoridade até que fosse liberada para voltar para casa.

Os motivos que levaram a mulher até o Fórum de Itaquaquecetuba foram óbvios: ela e mais tantas outras pessoas com mobilidade reduzida (cadeirantes e pessoas que usam muletas) e que vivem em Itaquá estão cansados da maneira como a cidade os trata.

Valdenira não foi sozinha, outros cadeirantes e mais portadores de necessidades especiais estiveram lá.

 

2 horas antes…
A reunião com o Promotor estava marcada para começar às 13h de quarta-feira, mas, como segundo ela, os motoristas de ônibus mentem alegando que os elevadores dos coletivos não funcionam, ela saiu de casa com duas horas de antecedência, como sempre faz.

Ainda em casa ela se arrumou, colocou uma blusinha azul céu, um chapéu estilo praiano para aliviar o calor na cabeça, e um jeans. Já em sua cadeira de rodas motorizada, Valdenira saiu de casa e seguiu até o ponto de ônibus mais próximo com destino ao Centro.

Questionada pelos motivos de sair tão cedo de casa para reunião que estava marcada para acontecer a tarde, Valdenira diz que o maior desafio é enfrentar os motoristas de ônibus e os passageiros que não têm paciência com cadeirante.

“As pessoas não entendem que também temos direito de ir e vir, de sair, de nos divertir, de pagar conta no banco, de fazer compras para o natal, de pegar ônibus, de andar de Uber ou taxi, ou viajar, somos seres humanos e não animais”, fala Valdenira, indignada.

 

A história continua… – O mesmo acontece com Barros, 43. Um frentista de posto de gasolina que há 13 anos está numa cadeira de rodas. Ele conta que tudo aconteceu quando estava em casa com a esposa e a filha, quando um homem armado entrou em sua residência anunciando o assalto.

“Eu reagi, não o deixaria levar o que é meu, mas durante a briga ele atirou”, lembra. A bala atravessou sua coluna e, consequentemente, mudou a rotina de Barros, que agora vende água no Centro de Itaquá. “Sofro com a falta de acessibilidade. Para subir a calçada preciso pedir ajuda, já tiveram que me carregar no colo para entrar no ônibus”, fala, emocionado.

Euides Alves Rocha, 51, também é cadeirante. Para ir e vir é preciso ter a companhia de alguém de confiança. “Às vezes encontramos obstáculos no dia a dia que sozinhos não conseguimos vencer”, fala.

 

Gestão Mamoru se cala – Questionada, a gestão de Mamoru Nakashima (PSDB) não respondeu a nenhuma pergunta enviada pela reportagem. Não falou sobre como é feita a fiscalização dos ônibus municipais que não param para cadeirantes ou qualquer outra pessoa com mobilidade reduzida, não esclareceu o fato de a cidade possuir vários obstáculos impedindo que cadeirantes e outras pessoas com mobilidade reduzida circulem livremente e com segurança por Itaquaquecetuba e nem mesmo confirmou se procede ou não a denúncia de que o MP-SP (Ministério Público de São Paulo) multou a prefeitura em processos anteriores por conta destes fatos.

 

O que diz o Fórum de Itaquá – De acordo com a promotoria e o MP-SP, com os depoimentos de todas as pessoas que compareceram na quarta-feira (19) será montado um processo com destino à Justiça com objetivo de dar a estas pessoas o direito de ir e vir com dignidade. Segundo a promotoria, ainda está cedo para falar de prazos, isto é, o trâmite será iniciado com o passar das festas de fim de ano.

 

Lei de acessibilidade – Na teoria da Lei Federal 13.146, pessoas com mobilidade reduzida, como é o caso de Valdenira, Barros, Euides e muitos outros, têm direito a “acessibilidade para utilização com segurança e autonomia de espaços mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, incluindo seus sistemas e tecnologias. Também tem direito a serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privado ou coletivo tanto em zona urbana ou rural”.

A lei também fala das barreiras como qualquer entrave, obstáculo, ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa com mobilidade reduzida e que limite seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros, são classificadas como criminosas.

“Barreiras urbanísticas, como por exemplo as existentes em vias e nos espaços públicos e privados abertos ao público ou de uso coletivo. Barreiras arquitetônicas existentes em edifícios públicos e privados e também as barreiras em transportes e nos sistemas e meios de transportes”. Tudo isso diz a Lei, no entanto, não é o que as cidades, como exemplo Itaquaquecetuba, fazem, segundo os próprios cadeirantes.

Enquanto nada é feito, Valdenira aguarda ansiosamente dias melhores.




One thought on “Cadeirantes e a luta por uma Itaquaquecetuba mais acessível

  1. Euides

    Segundo informações colhidas no fórum a prefeitura está sendo multada 1000(hum mil reais)por dia por ter sido condenada num processo por não cumprir a lei da acessibilidade.
    Aí eu pergunto:não seria mais fácil fazer? ou porque esse dinheiro todo nao do bolso do prefeito!?

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