Artigo: Escrevendo sobre coisas

Vivian Caliman é técnica enfermeira. Foto: Arquivo Pessoal

 

Por Vivian Caliman é técnica enfermeira

 

Vou escrever sobre isso, vou escrever sobre pés, sobre alpargatas, sobre cervejas, sobre vinhos, sobre margaridas amarelas, sobre o bambu com colher para pegar ovos no vizinho, sobre o sino que toca quando a bomba de água está cheia.

Vou escrever sobre seis cachorros que ficam em cima da mesa, cavam super buracos e mais parecem gatos, sobre a geleia de pimenta com tomate que eu não conhecia, mas que falaram pra eu arriscar e experimentar.

Vou escrever sobre o sorvete, a loja de roupa, a igreja e a água benta, sobre a outra igreja que fica fechada e perde visitas, sobre a casa do padre que lembra minha infância, sobre o algodão doce que deve ser no palito e não no guardanapo, o sítio em que morei quando criança, a fábrica de vela, o bairro esquisito em que passamos quando resolvemos fazer um outro caminho, o cachorro que é filho da minha sobrinha, sobre cheiro de lavanda na cama, sobre o abraço que se encaixa de forma perfeita, sobre o bom dia.

Vou escrever sobre acordar com seu amigo do lado e que agora é o  seu namorado, escrever sobre como é ser acordada no meio da noite com uma ligação que seu filho está no hospital por que tomou o primeiro porre.

Vou escrever sobre o primeiro filme em que assisti com ele ao meu lado, escrever em como estava frio no caminho e mesmo assim encontramos meninas com muito calor, escrever sobre como a mexerica estava geladinha ao colocar um gomo na boca após uma noite fria, em como o inseto nasce com sua camuflagem perfeita pra se esconder entra as folhas, escrever sobre as flores vermelhas na janela, a parreira de uva, o moedor velho e enferrujado de café, a quase coleção de machado, sobre os abacates caídos no chão, sobre a caminhada ao fim da rua e sobre outra caminhada com um pessoal engraçado.

Vou escrever sobre a quadrilha de cachorrinhos praticamente iguais, em como os dálmatas pareciam sorvetes de flocos e um deles tinha somente três pernas, sobre a horta e como eram grandes as cebolinhas, as madeiras encostadas na árvore, sobre minha filha na balança tirando fotos e escrevendo no meio da quadra por que, segundo ela, lá era mais confortável. Sobre os gibis que ela ganhou e ficou lendo até de madrugada, sobre as compras no supermercado, sobre o dormir junto a noite toda.

Vou escrever sobre as risadas, os olhares, os abraços, os beijos delicados, sobre o sol quentinho, sobre as histórias, as memórias, vou escrever sobre o futuro, sobre os planos, sobre o doce árabe, os pães com tomate no forno quentinho, o caldo de mandioquinha, sobre a garrafa de vinho que fechou aquela noite, sobre a vó que resolveu fumar um cigarrinho, sobre a visita da amiga de infância, sobre o vaso de vidro batendo no carro, mas que virou vaso com flores e joaninhas, sobre o frio e em como estava gostoso ficar sentado com ele lá fora fazendo as coisas acontecerem.

Vou escrever sobre música, mantras, sobre nossas experiências, sobre as delícias de estar ao seu lado.

Vou escrever sobre o amor, sobre nossa amizade e nossa liberdade.

Vou escrever sobre as coisas simples da vida.

Vou escrever sobre todas essas coisas.




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