Mogi perde “Seu Tote”, mas seus ensinamentos jornalísticos ficam

LUTO NO JORNALISMO

 

Mogi perde “Seu Tote”, mas seus ensinamentos jornalísticos ficam

 

Dono do Diário de Mogi foi enterrado na quarta-feira (14); profissionais lembram dele com gratidão

 

Por Vania Sousa

Da Redação

 

Mogi das Cruzes perdeu, na madrugada de quarta-feira (14), aos 83 anos, o fundador do Diário de Mogi, Tirreno Da San Biagio, um dos maiores entusiastas do jornalismo e mestre da maioria dos profissionais da área no Alto Tietê. Mais conhecido como “Seu Tote”, ou simplesmente Tote, ele era um apaixonado por Mogi e pela notícia, prova disso foram as bandeiras que o jornal defendeu durante mais de 50 anos de existência, como a duplicação da Mogi-Dutra, melhorias na Mogi-Bertioga, a instalação do Corpo de Bombeiros, melhorias para a Santa Casa, reforma do Luzia de Pinho Melo e tantas outras. Seu Tote morreu no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, de falência múltipla de órgãos e, segundo informações da própria Rede Diário de Comunicação, já passava por problemas de saúde há dois anos. Ele também foi responsável pela vinda da TV Diário, afiliada da Rede Globo para Mogi.

Mas sua paixão pelo jornalismo não se limitava somente em noticiar fatos da cidade e região. Ele é considerado como um mestre para muitos profissionais da área que hoje atuam no Alto Tietê, em São Paulo e até mesmo em outras cidades e fora do País. A redação do Diário sempre funcionou como uma verdadeira escola para focas.

“Quando cheguei do Rio de Janeiro, recém-formada, em 1991, fui parar na revisão do Diário. Depois de bater em muitas portas, tive a chance de aprender, ter o primeiro contato com textos jornalísticos, cheguei a chefe da Revisão. Foi uma escola. Hoje, sou editora e agradeço a oportunidade de exercer o bom Jornalismo”, lembra Vania Sousa, 50 anos, editora-chefe do Gazeta Regional.

Outro que iniciou sua carreira jornalística no Diário foi o editor da revista Potência, Paulo Martins, morador de Suzano: “Em fevereiro de 1992, prestes a iniciar o segundo ano de Comunicação Social, iniciei no jornal como auxiliar de Redação. Hoje sou editor de uma revista especializada na área elétrica, de circulação nacional, referência no setor”, conta ele, acrescentando que esta experiência foi crucial para ser o que é hoje. “Foi lá que obtive os primeiros direcionamentos na profissão, não só do ponto de vista técnico, mas também do comportamento ético e responsável. Seu Tote foi, na minha opinião, o maior expoente do jornalismo regional em todos os tempos. Os alicerces fincados por ele décadas atrás formam a base do jornalismo maduro que existe hoje no Alto Tietê.”

“Muito provavelmente, não seria a jornalista que sou, se não tivesse passado pelo Diário de Mogi. A faculdade ensina bastante, mas a realidade do jornalismo só vem com a prática cotidiana. Foi sob a batuta dele que aprendi o que é ser jornalista. A escola me deu o diploma. Mas, o Diário me deu a inspiração para seguir carreira”, ressaltou Mel Tominaga, ex-secretária de Comunicação da Prefeitura de Mogi e atual assessora de Imprensa do ex-deputado federal Junji Abe.

Para o editor-chefe do Diário de Mogi, Darwin Valente, o jornal, sob o comando do Tote, sempre foi um grande formador de bons jornalistas. “Por aqui, passaram Chico Ornellas, editor do Estadão; Julio Moreno, ex-diretor da Agência Estado; Gilberto Nascimento (Folha, Estado, istoé, Correio Braziliense); Evaldo Novelini, editor do Diário do Grande ABC; Sammy Charanek (Folha), Haissen A. Baki (Rádio Estadão), entre outros. Sempre houve, desde o início, a disposição dos editores e repórteres mais antigos, estimulados pelo Tote, de oferecer oportunidades a quem se destacava como ‘foca’ na Redação”, enfatizou.

 

Inspiração

O diretor do Gazeta Regional, Laerton Santos, 44 anos, também iniciou sua vida profissional no jornal do Tote. Ele conta que com 11 anos já trabalhava no Diário de Mogi, como entregador de jornais. Nesta função, ficou apenas um ano, retornando ao periódico anos depois. “Com 16 anos, voltei como auxiliar de laboratório fotográfico. Também atuei como fotógrafo. Foi lá que aprendi a amar o jornalismo”, lembra ele, acrescentando que foi no Diário que teve sua primeira carteira assinada. Anos mais tarde, Santos fundou seu próprio jornal, mas tem boas lembranças do começo de sua carreira: “O Diário foi uma escola para mim. Eu gostava de ver a rotativa rodando os jornais, tanto que hoje trabalho para ter minha própria gráfica”.

Sobre Seu Tote, ele frisa que era um homem extremamente simples e muito humilde para a posição que ocupava: “Ele era dono da maior empresa jornalística da região, mas era muito simples”, ressaltou.

 

Ele como parte da história

Mogiano nascido no Largo Bom Jesus, filho de italiano de Lucca e de paulista de Cachoeira Paulista, Tote iniciou sua trajetória no Jornalismo em 1951 pelas mãos dos irmãos Isaac e Jayme Grinberg, então proprietários da Folha de Mogi. Em 1957, com a noiva Neid, que viria a ser sua esposa, fundou o Diário de Mogi. Tinha 26 anos de idade.

Formado em Direito pela Universidade Braz Cubas, se considerava jornalista por vocação, tanto que, durante 58 anos, manteve a rotina de ser sempre o primeiro a chegar no jornal, que, nos últimos 40 anos, funciona na Rua Ricardo Vilela.

Tote Da San Biagio também idealizou a chamada “Confraria de Santa Fé”, grupo de mogianos que, há 40 anos, se reúne numa chácara no Caputera, para conversas regadas a vinho de boa procedência.

Um de seus desafios foi preservar a antiga Rádio Marabá, primeira emissora da cidade, adquirida por ele e transformada na Rádio Diário de Mogi. Depois, foi o grande incentivador para que os filhos Tulio e Spartaco montassem a TV Diário, afiliada da Rede Globo de Televisão, com concessão do Governo Federal.

 

Saúde frágil

Em 2013, Tote foi internado com problemas cardíacos no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Depois dessa, foram várias internações, devido a problemas renais e pulmonares. As três últimas no Hospital Albert Einstein.

Ao velório de Tote foi realizado no salão nobre da Câmara Municipal de Mogi das Cruzes. Ele foi sepultamento no jazigo da família no Cemitério São Salvador.