O medo de alma e o sonho em salvar vidas

Vida Loka Também Ama

  

Coluna de Pedro Chavedar

  

Márcio Roberto era uma novidade para mim. Nunca antes havia visto nem conversado com ele. Era um sábado de manhã quando cheguei, mais uma vez, na praça 1º de Setembro, centro de Mogi das Cruzes. Cumprimentei os conhecidos e falei de amenidades. Durante o papo, Márcio esticou a mão para me saudar. Retribui. Questionou sobre a minha câmera, que carregava no ombro, e começou a falar de sua vida. Pedi autorização para gravar, rapidamente concedida. O mogiano está nas ruas desde criança e que, nessa época, foi estuprado quando estava bêbado. “As pessoas olham a gente como indigente e nós não somos. Somos moradores de rua. Nós somos fora da sociedade”, disse.

De fala rápida e afobada, com uma barba rala preta e branca, Márcio disparou a falar sobre vários temas. “A gente tá vivendo na rua. Vai fazer o que? A gente tem que ir até a reportagem para orientar o que nós têm que fazer porque a Prefeitura Municipal não está resolvendo o problema dos moradores de rua”, disse. Na sequência, foi taxativo em dizer que está na rua porque não tem trabalho.

Márcio vai e volta em suas ideias: critica a Assistência Social, a Prefeitura de Mogi das Cruzes e a Guarda Civil Metropolitana. Sobre eles, comentou sobre a violência e problemas nos albergues.

Disse ser alcoólatra e que paga por seu Corote. Para o seu futuro, quer ser bombeiro para salvar vidas, mas também sonha em ser motorista de ambulância. Seu medo são as almas – “elas sempre aparecem para mim porque eu to bêbado” – e não acredita em Deus. “Sabe por quê? Tenho 45 anos, 20 anos de igreja e Deus não me ajudou. Eu to na rua e não tenho onde morar”.

Felicidade não é algo que faz parte de sua vida. “Hoje a minha felicidade é eu mesmo. Eu acredito em mim mesmo. Eu vou alcançar o objetivo da minha vida, mas Deus uma hora vai preparar um barraco para mim”, comentou. “A gente é ser humano. Ser humano também vive. Nós temos sangue”, desabafou, alterando o tom da voz e visivelmente emocionado.