Os notáveis do Supremo e o rebanho

Por Wagner Belmonte

  

O STF conseguiu entrar mais uma vez na cena política e provocar indignação e escárnio ao agir na contramão do que as instituições, sejam elas públicas ou privadas, devem construir à luz da cidadania e da relação do brasileiro com o Estado.

Não foi a primeira vez – certamente não será a última-, mas a falta de transparência dos poderes instituídos é algo que afasta o brasileiro de questões que envolvem o interesse público. Não por acaso o brasileiro comum anda tão longe da política e a enxerga de forma tão clientelista, à base da cultura do “toma lá dá cá”, do “é dando que recebe”…

Os togados ministros, do auge de seus confortáveis tribunais com poltronas muito mais confortáveis do que as camas da imensa maioria dos brasileiros, acenaram com a censura, restringiram que eles estejam diante de olhares segundo os quais a sociedade merece explicações claras de decisões que eles próprios tomam e que interferem em nossas vidas.

Não bastasse o ceticismo, o que se vê nesse momento é uma ação sob medida de “rearistocratização”, como se o Brasil estivesse mais uma vez dividido entre notáveis com direitos supremos especiais e um imenso rebanho que deve permanecer calado.

Sonegar o direito à informação, violar a transparência e se negar a prestar contas são caminhos que colocam o Brasil num rumo institucional perigoso. Como disse um senador à época do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, “com o STF, com tudo”.

O brasileiro em silêncio merece mais respeito. A Justiça vai passar a merecer apreço quando se preocupar em punir os responsáveis pela tragédia em Brumadinho (MG), onde algumas famílias sequer conseguiram os resgates dos corpos de seus parentes, ou quando deixar o corporativismo populista de lado e julgar como se deve a ação do Exército no RJ que metralhou com 80 tiros um músico na frente do próprio filho. Fica a impressão que a Justiça está tão envergonhada de tanta omissão que recorreu à possibilidade de censura como forma de tirar o foco para questões sobre as quais a sociedade exige uma resposta.

Gazeta Regional

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