Plena Saúde presta serviço falho para Itaquá, criticam servidores

Um dos contratos mais altos da prefeitura pode acabar caso se confirme descumprimento de contrato

  

Por Gabriel Dias / Foto: Bruno Arib

  

Os servidores municipais de Itaquaquecetuba estão descontentes com os serviços da empresa Plena Saúde. Contratada em dezembro de 2018 para oferecer convênio médico a mais de 3,8 mil funcionários públicos ativos e inativos, além de dependentes, a empresa não tem honrado o contrato milionário avaliado em R$ 17,2 milhões, na opinião dos usuários. Ao se declarar ciente da insatisfação dos trabalhadores, a Prefeitura de Itaquaquecetuba garante que já tem cobrado satisfação da empresa. Procurada para se posicionar, a Plena Saúde não foi localizada.

Dentre as diversas reclamações feitas pelos servidores à reportagem, destaca-se suposto descumprimento de contrato relacionado à disponibilização de um hospital de fácil localização, o que não acontece. Segundo entrevistados, o local de referência mais próximo fica em Franco da Rocha, cerca de 78,5 Km de Itaquá, ou aproximadamente 1h24 de distância de carro. Para quem depende de transporte público, o trajeto chega a demorar cerca de 2h35. A situação tem levado alguns funcionários públicos a preferirem pagar consultas particulares do que utilizar ônibus e trens para chegar até o hospital conveniado.

 

CASOS – Wanderley Fascioli, 61, tem câncer e já fazia acompanhamento em outro convênio que a prefeitura tinha em anos anteriores. Com a mudança de empresa, Fascioli diz que a Plena Saúde não se recusa em atendê-lo, mas que para realizar exames como tomografia e outros, ele precisa ir até Franco da Rocha.

“Moro sozinho e trabalho a noite. Como vou passar mais de 2h30 dentro de um trem até Franco da Rocha para fazer um exame?”, questiona. “É cansativo, a gente que precisa disso acaba ficando mais doente. Preciso trabalhar, não posso passar metade do meu dia dentro do trem para ir em Franco da Rocha e depois ficar mais 2h30 para voltar para casa”, ressalta.

André Souza Navarro, 43, é vigia escolar e passou mal devido a um princípio de infarto. Devido à urgência do caso, ele deveria chegar ao hospital mais próximo, no entanto, segundo testemunhas, a ambulância percorreu o trajeto até Franco da Rocha para realizar os atendimentos. Navarro passa bem.
É comum que os servidores públicos insiram dependentes nos convênios.

Uma funcionária que incluiu seu filho precisou levá-lo para uma cirurgia, em Mogi das Cruzes, no entanto, para acompanhar o jovem até o hospital, a mãe precisou pegar carona e seguir a ambulância porque não a permitiram entrar na viatura.

Em outro caso, funcionários lembram que um servidor passou mal, foi encaminhado ao Hospital São Lucas, em Itaquá, e o médico solicitou que fosse feito ultrassom, no entanto, a Plena Saúde, segundo os servidores, não cobre este tipo de serviço, portanto, o hospital disse que faria o exame pelo preço de R$ 110.

 

O QUE DIZ A PREFEITURA – Conforme indica o item 2.2 da licitação, a empresa contratada deve assegurar “a oferta de hospital de alto padrão técnico e de fácil acesso aos beneficiários, garantindo assim facilidade aos usuários à prestação dos serviços”. Já a cláusula 16 diz que o Executivo pode acabar com a parceria caso não se respeite as cláusulas e condições estabelecidas no contrato.

Questionada sobre o fato, a gestão Mamoru Nakashima (PSDB) informou que “caso não haja disponibilização de credenciamento de hospitais e clínicas na região para atender os funcionários, poderá ser instaurado processo administrativo para apuração do descumprimento do contrato”.

A administração municipal acrescentou que tem ciência das reclamações feitas diretamente pelos servidores ou via Sinseri (Sindicato dos Servidores Públicos de Itaquaquecetuba). “A prefeitura entende a reclamação dos funcionários, está preocupada em resolver a situação, tanto é que tem mantido contado com a empresa Plena cobrando o cumprimento do contrato.” 

 

Sindicato dos servidores diz acompanhar situação

 

Na condição de advogado do Sinseri (Sindicato dos Servidores Municipais de Itaquaquecetuba), Rafael Ceroni Succi conversou com a GAZETA por telefone e explicou as dificuldades dos funcionários públicos que recebem atendimentos em Franco da Rocha.

“Partimos do pressuposto de que a empresa precisaria ofertar atendimento em local de fácil acesso aos beneficiários, mas isso não acontece. Numa última conversa com eles [servidores], uma funcionária pública tinha consulta marcada em Franco da Rocha por volta das 23h. Ela só foi atendida pela madrugada, e ao voltar para casa logo precisou bater cartão na prefeitura, sem ao menos ter uma hora de sono”, lembra.

Por conta das inúmeras reclamações contra a empresa, o Sindicato chegou a protocolar na Justiça um processo pedindo esclarecimento e apoio do judiciário, no entanto, segundo Ceroni, o documento foi analisado e, no entendimento da Justiça, não há problema no fato de os servidores serem atendidos longe de suas residências, como vem acontecendo. “Estudamos medidas judiciais para que este cenário se converta e traga aos servidores um atendimento mais eficaz e próximo a eles”, garante Rafael Ceroni.

 

HISTÓRICO – Ao consultar o histórico da Plena Saúde junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo, o nome da empresa aparece em várias ações, entre elas, por erros médicos e danos morais. Algumas das tramitações encontradas são recentes.

A GAZETA tentou contato diversas vezes com a empresa Plena Saúde pelos números (11) 4445-9080 e (11) 2450-0070 para saber detalhes sobre os processos de erros médicos e das reclamações contra a empresa, no entanto, não conseguiu falar com representantes. 

Gazeta Regional

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