Transformação social

Alfredo dos Santos Junior é diretor executivo do Instituto GESC. Foto: Arquivo Pessoal

 

Por Alfredo dos Santos Junior

 

Certa ocasião, atendendo a convite do Instituto C&A, tive a oportunidade de apresentar uma palestra no Encontro Nacional dos Voluntários dessa empresa. Foi uma ótima experiência poder falar para um grupo de mais de 300 pessoas vindas de todos os cantos do País em um evento marcado por um alegre clima de celebração. Minha satisfação foi completada pelo fato de o Instituto C&A ser um dos grandes parceiros do Instituto GESC, junto ao qual exerço parte de minha atividade profissional. Ainda neste evento, pude conduzir, também, uma oficina para representantes de 30 organizações da sociedade civil, na qual pudemos conversar sobre os principais desafios que estas organizações enfrentam nos dias de hoje.

Não é mais novidade que empresas que tenham consciência de sua responsabilidade social incentivem o trabalho voluntário e que tal atividade tenha se convertido em um aspecto bastante valorizado no currículo dos profissionais em geral. Mas, mesmo com conhecimento desta realidade, me surpreendeu constatar que, embora houvesse participantes de todas as idades, a maioria era constituída por jovens, que se mostraram muito interessados no que se discutia nas várias atividades propostas. O que me chamou particularmente a atenção, contudo, foi o foco que meus anfitriões pediram que desse em minha apresentação: falar da situação atual das organizações da sociedade civil, sua evolução histórica, seu perfil atual no Brasil e o papel que os voluntários podem desempenhar neste contexto.

Trata-se de um tema sobre o qual gosto muito de falar, mas me preocupou ter uma plateia constituída por tanta gente jovem e que já está engajada em algum tipo de trabalho voluntário incentivado pela empresa. Quando perguntei sobre este aspecto a uma gestora do Instituto C&A, ouvi: “Queremos que os voluntários percebam que seu trabalho pode ir além da doação de tempo e algum esforço; queremos que sintam o potencial político que sua atuação pode ter”.

É claro que o sentido do “político”, aqui, transcendia em muito qualquer sentido partidário. O objetivo era levar aquelas pessoas a perceber, ainda que inicialmente, que poderiam com seu trabalho ajudar a transformar a realidade social na qual vivemos. Eu, que já estava bastante feliz com a oportunidade de falar, fiquei ainda mais satisfeito, pois é exatamente este conceito de voluntariado que adotamos como norteador de nosso trabalho tanto junto às empresas, como em relação às organizações da sociedade civil, as OSCs.

A sociedade civil vem ganhando peso e importância, principalmente nos últimos 30 anos, quando emergiu como terceira grande força, capaz de influenciar de forma decisiva o rumo dos acontecimentos, pela oportunidade que tem de cooperar – e de cobrar, quando necessário – os outros dois grandes setores: o poder público e o mercado. Hoje se sabe que, sem tal cooperação entre estes três grandes atores, dificilmente conseguiremos enfrentar com êxito os enormes desafios que estão postos para todos os países. Na era da globalização, é clara a interdependência que existe entre governo, mercado e sociedade. E é a parcela organizada desta sociedade – constituída por um diversificado conjunto de organizações e movimentos – que está em condições de funcionar como elemento-chave para o trabalho conjunto de transformação social.

Talvez o leitor possa estar perguntando: “Certo, mas o que o trabalho voluntário tem a ver com isto”? Resposta: tudo! O trabalho voluntário é a porta de entrada para a participação das pessoas em projetos de transformação social. Quando falamos no IGESC para colegas que se candidatam a trabalhar voluntariamente, procuramos mostrar a eles que seu comprometimento em ajudar a fortalecer uma OSC pode ter um efeito muito maior do que o simples trabalho em um determinado período de tempo.

Organizações sociais podem ser verdadeiras escolas de ética e ação política transformadora, e quanto mais fortes forem em seus processos de atendimento e gestão, mais intensos serão os efeitos que poderão causar junto às comunidades com as quais atuam e cujas necessidades se esforçam em atender.

Quando o trabalho voluntário vai além da doação de um tempo livre e se torna uma forma de engajamento em um projeto comum, ele adquire um status de cidadania real, que transcende o discurso bem-intencionado e atinge o aspecto concreto da vida.

As empresas estão mais do que certas em estimular este tipo de trabalho. E as pessoas que querem fazer diferença têm aí uma excelente oportunidade de causar um impacto social. E, de quebra, valorizar e muito seu currículo.

 

 

 




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