A politização da pandemia

Por Gaudêncio Torquato / Arte: Giovanna Figueiredo

Cada coisa em seu lugar. Ou, em outros termos, cada macaco em seu galho. A popular expressão aconselha que cada pessoa deve exercer o que é de sua competência, fazer o que é de sua atribuição, sem mexer em coisas que desconhece. Cada um na sua. O conselho cai bem nesses turbulentos tempos em que o Covid-19 foi puxado das salas da medicina para o palanque político.

A pergunta é inevitável: permanecesse no campo da ciência, esse mortífero vírus teria matado tanta gente, aqui e alhures? Caso os governantes tivessem adotado as recomendações de especialistas, esse vírus, que mede bilionésimos de um metro, teria infectado mais de 12 milhões de pessoas no mundo (dados desta 5ª feira) e matado até agora cerca de 600 mil pessoas?

Para ficarmos em nossas plagas, se o presidente Jair Bolsonaro não fosse uma das principais alavancas da politização da pandemia, se governadores e prefeitos tivessem adotado medidas tecnicamente necessárias desde os tempos iniciais da crise sanitária, concentraria o Brasil 14% dos diagnósticos do planeta, com 1,7 milhão de infectados e cerca de 70 mil mortes?

A resposta de bom senso apontaria para uma quantidade bem menor. O que leva à conclusão: a falta de cumprimento de preceitos da ciência por parte dos gestores públicos tem sido responsável pela mortandade que se espalha, puxando para as nossas cabeças a ideia de que, sob esse prisma, estaria sendo cometido um genocídio.

O fato é que a doença foi conduzida aos laboratórios da política, em que dirigentes tentam descobrir remédios para tirar proveito da situação, em que se indicam drogas rejeitadas por organismos internacionais de saúde pública, infectologistas e biólogos, em que muitos vestem o manto de salvadores do povo, em que se puxa a fé das massas para o balcão das oportunidades.

Infelizmente, a politização da pandemia vai continuar a animar por mais algum tempo as alas bolsonaristas e adversários, pois isso interessa aos polos extremos do arco ideológico. Mas é possível constatar que o copo das querelas e acusações recíprocas começa a transbordar. Só mesmo os 15% dos fiéis radicais do bolsonarismo e um índice até menor da extrema esquerda apreciam este tiroteio verbal.

Felizmente, o Facebook está excluindo cerca de 80 contas de seu espaço, acusadas de manipulação por integrantes do tal “gabinete do ódio”, instalado no Palácio do Planalto. Uma companhia do tamanho e respeitabilidade do Facebook não faria isso sem provas. Por isso, devemos acreditar no arrefecimento da polarização.

Gazeta Regional

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