A Terra é redonda

Por Wagner Belmonte

Jair Bolsonaro é um líder. Os presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso também foram, na mesma proporção em que Dilma Rousseff e José Sarney não conseguiram ser. Itamar Franco, outro nome da história recente do Brasil, teve a virtude de se perceber protagonista de um governo de transição depois do impeachment de Fernando Collor de Mello, o presidente que chamou o carro brasileiro de carroça e que disse que empresários da Fiesp eram “porcos que chafurdavam na lama”.    

Há muito a se preocupar com a liderança que Jair Bolsonaro exerce neste Brasil de 2019, aparentemente tão sintonizado com regimes conservadores pelo mundo – o de Donald Trump em especial. Para além da Reforma da Previdência, que vai, mais uma vez, punir quem tem menos e praticamente não mexer com “direitos adquiridos” de quem assegurou generosidades do sistema, a agenda ambiental, a questão indígena e a educação são destaques negativos.

O ministro do Meio Ambiente é uma tradução perfeita do governo que aí está. A fauna e a flora reduzidas (o desmatamento na Amazônia cresceu 80% em julho sobre o mesmo período do ano passado) levantam preocupações internacionais. Bolsonaro disse que não precisa do dinheiro da Alemanha para a preservação da Amazônia. E, para manter a liturgia que se espera dele, mandou a chanceler Angela Merkel, que é apenas uma liberal, reflorestar a Alemanha com os recursos. A capa da The Economist é mais uma das façanhas de um governo muito hábil em mergulhar o Brasil no anedótico, jocoso ou circense. Espécies e árvores não têm partido –  elas não são de centro, nem de esquerda ou direita. O governo Bolsonaro recorre a um modus operandi claro: quando confrontado com alguma evidência científica, as vozes que o sustentam se valem de argumentos que obrigatoriamente incluem a ideia de “ideologia”, ideologia de esquerda, apontam ou acusam os ministros do primeiro escalão e o próprio presidente. Criticar o desmatamento da Amazônia, por exemplo, é “ideologizar a ciência e desrespeitar o presidente”, como disse o titular do Meio Ambiente à Globonews.

Enquanto parte da sociedade canaliza sua energia apenas para se opor ao governo e desconstruir a agenda política de Bolsonaro, uma outra questão, essa, sim, essencial, fica em segundo plano: não há, neste momento, uma liderança de centro ou de esquerda que possa se opor a Bolsonaro, que possa nos indicar caminhos institucionais mais serenos e menos radicais. O discurso da esquerda se resume a “Lula Livre” e às críticas ao ministro Sérgio Moro, que teria sido demitido se as instituições fossem sólidas e se não houvesse o ativismo judicial que compromete a percepção do brasileiro comum sobre o Estado.

Falta à esquerda um nome. Falta à esquerda agenda. Falta à esquerda sentido, propósito. Falta à esquerda brasileira superar os traumas e olhar para o futuro, sob o risco de enfrentar uma sequência histórica de derrotas. Falta à esquerda sonhar. Enquanto falta tudo isso, sobram os estragos da delação de Antonio Palocci, filiado ao PT e ex-ministro da Fazenda de Lula. Foram, segundo ele, R$ 333 milhões de empresas e bancos em 23 depoimentos do próprio ex-ministros à Polícia Federal.

Lula é carta fora do baralho. O PT só tem um caminho: olhar para dentro e se reinventar se quiser sobreviver. Preso, o ex-presidente não tem idade, saúde e disposição para ser um contrapeso à liderança de Bolsonaro – o chumbo vem de todo lado, inclusive do ex-ministro da Fazenda do seu governo. Não se pode desprezar a liderança do ex-presidente, mas qual seria o nome de consenso para o qual seria construída uma alternativa? Como trabalhá-lo? Como restabelecer o diálogo com a sociedade? Como reconstruir os ideais e a credibilidade, já que partido envolvido em corrupção cria a percepção de que a política é um fim para benefícios próprios ou, como diz Millor Fernandes, corrupção é aquilo que a gente combate nos outros enquanto a gente não está no poder?

Enquanto isso, João Doria não consegue migrar para o centro e é visto como oportunista quando nega o alinhamento com o então candidato do PSL à presidência – o que fortalece mais ainda Bolsonaro. O presidente não oscila. Um simples busca no Google desmente o governador de SP, de retórica fisiológica. No discurso de governador eleito, Doria disse que o PSDB não ficaria em cima do muro e que estaria com Bolsonaro contra Haddad. Com a internet, nunca foi tão fácil encontrar e constatar a contradição no discurso itinerante de Doria.

O cenário político brasileiro preocupa porque a oposição é o oxigênio da democracia. Esse oxigênio parece repleto de impurezas. O senador Randolph Rodrigues (Rede-AP) é um bom nome. Marcelo Freixo, Sâmia Bomfim e Alessandro Molon também são. Mas quem os conhece a ponto de ajudar a construir uma liderança nacional propositiva? Ciro Gomes nunca convenceu ninguém que é de centro-esquerda. Marina Silva, que ora apoia Aecio e ora se mantém neutra, está perdida como sempre. Marina não consegue, apesar da beleza de sua biografia, ser uma figura pública minimamente coerente ou confiável. Ela parece fadada a nunca se viabilizar. Está correndo o sério risco de cair no folclore político, em vez de se tornar uma terceira via.

O Brasil de 2019 é produto do conservadorismo que diz a que veio, que tem cara, estilo, jeito de governar. É aristocrático, preconceituoso, opressor, machista, predatório, racista. É também coerente, e é aí que mora o problema. Conservadorismo que se nega a conversar com a sociedade, que vê o patético presidente da Câmara dos Deputados chorar na aprovação da Reforma da Previdência, que corta verbas da educação, que se cala diante dos 200 tiros disparados contra um músico por militares do Exército no Rio de Janeiro, executando-o diante de sua família. O Brasil de 2019 é o Brasil das meninas que “devem usar” rosa e dos meninos “azuis”. O problema é que eles dizem que a Terra é plana e a gente brinca com isso, satiriza, ironiza, entra na onda do jocoso e do circense. Chegou a hora de a gente provar que a Terra é redonda, redonda como o ciclo que temos de percorrer para nos reinventarmos. Se não olharmos para isso, a Terra continuará sendo o plano que vai abrigar inúmeras derrotas sociais do brasileiro comum. E um país a cada mais injusto, individualista e sem consciência continuará a ser construído.

Wagner Belmonte é professor universitárioWagner Belmonte

Gazeta Regional

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