Boracéia abandonada continua à espera de que algum prefeito se lembre que a localidade existe

Longe da realidade que o atual governo olhasse o bairro que é o mais afastado da região central do município bertioguense

Por Aristides Barros / Fotos: Bruno Arib

Está para nascer o prefeito que vai fazer com que cada um dos milhares de moradores de Boracéia se sinta um bertioguense de fato e de direito.

A confusão de identidade acontece porque os gestores públicos que chegam ao cargo não colocam o bairro na pauta de ações da prefeitura, e deixam de lado a população e todos os problemas da localidade. Essa indiferença motiva os moradores a questionarem se o desprezo seria devido a Boracéia ficar a uma distância de mais de 30 km da região central de Bertioga.

Tem quem atribua que a longitude separando o bairro do Centro – onde estão sede da prefeitura e Câmara Municipal – seria a razão dos políticos do município, incluindo o prefeito, a se manterem neutros no tocante a trabalhar pelo bairro. O que aconteceu nesse ano eleitoral, já com as eleições prestes de ser realizada.

A administração pública acordou para a realidade e, aos 45 minutos do segundo tempo, fez algumas coisas pelo bairro. Porém, nada que anime a população ansiosa por trabalhos que tragam melhoria significativa à questão de saneamento básico, educação, saúde e segurança entre outros.

O eletricista Jerlan Sampaio dos Santos, 39 anos, o Axé, que preside a ACMB (Associação dos Moradores das Chácaras Mogianas em Boracéia), afirma: “Tudo que tem é deficitário e há anos que precisa ser melhorado.”

Segundo ele – que não tem a simpatia da administração por cobrar insistentemente que ela trabalhe pelo bairro – Boracéia precisa de melhorias na iluminação, extensão de rede de água (alguns pontos do bairro não têm o serviço), canalização de esgotos (inúmeras valetas correm a céu aberto), educação (creche), e saúde, o que é verificado na necessidade de reforma do posto médico da localidade que, também, precisa de ‘mais médicos’.

A unidade conta com três profissionais de medicina – Dr. Renato, Dr. Adilson e Dra. Lídia.

“Dois se afastaram por terem contraído a Covid-19, só ficou a médica. Ela é excelente profissional, mas não dá conta de atender a demanda de pacientes, que é muito alta”, disse o líder comunitário. Destaca-se que Boracéia é um bairro populoso, tem próximo de 13 mil habitantes.

Desviada

O alto índice populacional e a distância que a separa da área central, onde fica o Hospital Municipal, obrigam Boracéia a ter uma unidade de saúde capacitada para atender a alta demanda.

O líder comunitário contou que a localidade quase chegou a ter uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), que depois foi construída no Indaiá, porém, nunca chegou a funcionar e, hoje, uma base do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

Ao contar que a UPA que seria em Boracéia “mudou de endereço”, arrematou: “No final, nenhuma das duas localidades teve a UPA.” A derrapada política venceu a necessidade do povo.

Boracéia tem dois parlamentares que dizem que lutam pelos direitos e defesa dos moradores. Um é o próprio Luís Capellini (PSD) e o outro é Magno Roberto Silva Souza (Republicanos), o Biró. As pessoas ouvidas pela reportagem disseram que juntando os dois “não dá um vereador”.

Reclamação: prefeitura trabalha só nos anos de eleição, mas bairro quer atenção permanente do Poder Público

O povo não é bobo e questiona os motivos das obras realizadas no bairro acontecerem justamente quando faltam poucos dias para as eleições municipais e para acabar o mandato do prefeito Caio Matheus (PSDB), que, coincidentemente, tenta a reeleição.

Para muitos, o serviço feito às portas da eleição é para que a população esqueça que foi esquecida ao longo de quase quatro anos de mandato. Por isso, o trabalho é recebido com uma avalanche de queixas.

Os moradores opinam que tudo deveria ser feito nos primeiros anos de mandato, e que é tarde para ganhar a consciência e os votos de Boracéia, no que consideram que seja uma simulação de que a prefeitura trabalha pela localidade.

A tentativa de angariar simpatia é derrubada pelo ajudante geral Francisco Constantino, que mora há 45 anos no bairro. “É normal chegar eleição e todo mundo fazer alguma coisa”, alfinetou. “Eu tenho a esperança de que um dia o asfalto também vai chegar aqui”, disse ele, citando que a pavimentação feita na entrada do bairro melhorou os acessos à creche, escola e posto de saúde.

Enchente

Moradora do bairro há sete anos, a dona de casa Eliane Maximiano diz que Boracéia precisa de obras de contenção de enchentes.

“Quando chove as ruas ficam alagadas com a água subindo até o capô do carro”, relatou. Para ela, além da pavimentação, Boracéia pede segurança. “Precisa ter policiamento ostensivo”, reivindicou.

Moradora há 16 anos, Elizabete Teixeira pontua a extensão de rede de água e energia elétrica.

“As ruas não têm iluminação. Esperamos que liguem água nas casas para cada um ter seu relógio. Pagaremos pelo serviço, nada é de graça”, observou. “Os políticos têm de trabalhar por todos os bairros, sem excluir nenhum. O que infelizmente fazem com Boracéia”, reclamou.
Maria dos Santos também se queixa.

“Poderiam asfaltar a Avenida Deputado Emílio Justo, que é a principal do bairro. Só asfaltaram o trecho inicial e aqui quando chove não dá para passar com a minha moto”, narrou.

Céu e inferno: bairro demonstra a deslealdade do governo bertioguense com a sua população

Na junção mar e bairro, um paraíso infernal, porque de um lado da Rodovia Rio-Santos o mar, em sua imensidão azulada, traz a bela paisagem da grandiosa obra divina contrastada com o outro lado, com Boracéia e sua população enfrentando situações danosas, nascidas da trágica ausência de compromisso dos políticos com o povo que os elege para trabalhar na solução dos problemas e, ao longo dos mandatos, é esquecidos.

O esquecimento é ilustrado no avolumado de ruas sem manutenção, ladeada por matagais que deveriam contar com guias e sarjetas, terrenos baldios que acabam servindo como depósito de lixo e entulho, e outros até com materiais que poderiam ser utilizados para canalizar a quilométrica extensão de valetas que ladeiam várias partes do sistema viário da localidade.

Some-se a isso a proliferação desenfreada de insetos, ratos, cobras e outros animais peçonhentos que assustam tanto quanto um político preguiçoso. O prefeito deveria ter se apercebido de toda essa anomalia urbana nos instantes iniciais de seu mandato, sem deixar “para depois” serviços prioritários à saúde, dignidade e bem estar da população que, independente se cada cidadão é ou não contribuinte de impostos, é um ser humano e como tal deve ser tratado e respeitado.

A imagem do bairro, banhado pela obra divina e sujo pela pouca, mas ineficiente obra administrativa, fica registrada na figura de crianças, cujo bom futuro é fortemente comprometido pela fraqueza de contínuos gestores que não veem e nem têm o povo como prioridade de governo.

Gazeta Regional

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