Descontentes com a NotreDame Intermédica, clientes cobram leitos de Covid no Alto Tietê

Detentora de contrato com a Prefeitura de Mogi, empresa interna pacientes no ABC e na Capital

Por Lailson Nascimento / Fotos: Bruno Arib

Levantamento realizado pelo SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Demais Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo) aponta que as internações por Covid-19 aumentaram em 79% dos hospitais participantes da pesquisa e que a ocupação média dos leitos de UTI destinados à doença é de 84%. A pesquisa abrangeu todos os 17 Departamentos Regionais de Saúde do Estado de São Paulo.

No Alto Tietê, esse crescimento tem preocupado a ASMMC (Associação dos Servidores Municipais de Mogi das Cruzes). Em entrevista exclusiva à GAZETA, o presidente da entidade, Lauro Eduão, observou que os servidores públicos que utilizam o plano de saúde da NotreDame Intermédica e que são infectados pelo novo coronavírus não têm leitos de enfermaria e de UTI à disposição na cidade. Segundo ele, a situação obriga os pacientes a utilizarem os hospitais Intermédica ABC e Salvalus, localizados em São Bernardo do Campo e São Paulo, respectivamente.

Responsável por mais de 4,2 mil vidas de funcionários públicos da Prefeitura de Mogi das Cruzes e do Semae, a empresa recebe R$ 375,62 por cada pessoa. Somente no contrato que mantém com a administração municipal, desde 2017, o grupo fatura mais de R$ 19 milhões ao ano. Em um momento de pandemia, entretanto, a NotreDame Intermédica não tem feito jus ao que recebe no município, no entendimento da ASMMC.

Em agosto, a operadora de plano de saúde publicou nota, em seu site, informando os clientes sobre a decisão de centralizar os casos de internação por Covid-19. Ao justificar que naquele momento havia uma redução de casos de coronavírus com necessidade de internação, todos os casos que ocupassem leitos seriam encaminhados para o Hospital Intermédica ABC e Hospital Salvalus.

Segundo a empresa, as unidades hospitalares estão “localizadas em pontos estratégicos e de fácil acesso, garantindo mais segurança e acolhimento na assistência à saúde dos beneficiários.” Não é dessa forma que a maioria dos servidores analisa a atitude da Intermédica. Conforme pesquisa realizada pela ASMMC, 88% dos associados que participaram da pesquisa (universo de 357 pessoas) se manifestaram contrários à medida.

“De uma forma geral, o que mais nos preocupa nesse momento é o hospital de referência ser em outra cidade. A gente fica desguarnecido, fica sem rede de apoio. Não estamos discutindo a qualidade do atendimento, mas a distância de deslocamento das pessoas que necessitam desse atendimento. Imagina o acolhimento de uma pessoa que vai para outra cidade que ela sequer conhece? Portanto, pedimos um acolhimento mais digno, afinal, nós pagamos por isso”, reclamou o presidente da associação de servidores.

Em posse da pesquisa, Eduão quer uma reunião com a diretoria do grupo NotreDame Intermédica para apresentar a avaliação dos servidores a respeito dos serviços da empresa e cobrar melhorias para o serviço, principalmente em relação às internações por Covid-19.

O que diz a NotreDame

Em nota, a NotreDame Intermédica afirmou que ainda não foi procurada pela Prefeitura de Mogi das Cruzes para eventuais reclamações. Confira a resposta da empresa na íntegra:

“Todas as informações acerca de Covid estão sendo repassadas diretamente aos órgãos públicos de saúde. O Grupo NotreDame Intermédica (GNDI) possui relação de transparência e diálogo com todos os seus clientes visando a saúde e o bem-estar dos beneficiários com segurança, eficiência e humanização do atendimento.

Neste caso específico envolvendo a Associação dos Servidores Municipais, cabe esclarecer que a contratante é a Prefeitura Municipal de Mogi das Cruzes, sendo que até o momento o Grupo NotreDame Intermédica não recebeu qualquer notificação da administração municipal em relação à qualidade dos serviços prestados.

O Grupo NotreDame Intermédica mantém disposição permanente para conversações frutíferas que resultem, a exemplo do que já vem sendo praticado, no processo contínuo de aperfeiçoamento da assistência disponibilizada aos servidores municipais, sempre oferecendo soluções em saúde e odontologia.”

Grupo NotreDame Intermédica está entre as primeiras no Índice de Reclamações da ANS

Segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde), o Grupo NotreDame Intermédica possui mais de 3,1 milhões de beneficiários de planos de assistência médica em todo país. Por ser uma das maiores empresas do ramo, ela também está entre as primeiras no IGR (Índice Geral de Reclamações) da agência reguladora do setor.

De acordo com os dados divulgados pela ANS em outubro – último mês de medição -, a empresa ocupava a 16ª posição no ranking de operadores de saúde com o maior número de reclamações de seus clientes. Naquele mês, a NotreDame Intermédica perdeu quatro posições no índice negativo, já que, em setembro, ela era a 20ª com mais reclamações registradas na ANS.

A avaliação ruim por parte dos clientes também pôde ser observada na pesquisa realizada pela ASMMC (Associação dos Servidores Municipais de Mogi das Cruzes). No levantamento, que até o dia 11 obteve 405 respostas, 45% dos participantes avaliaram os serviços como regular, 31% como ruim, 21% como bom e 3% como ótimo. A pesquisa, que obteve volume de participação inédito e só pode ser respondida por servidores identificados, segue à disposição até a próxima segunda-feira (14).

Para o presidente da entidade, Lauro Eduão, o resultado geral é reflexo da falta de respaldo por parte da empresa em um momento de pandemia.

“Opinião pessoal: eu tive suspeita de Covid por duas vezes, e foi a rede pública que eu procurei. Se você está com suspeita de Covid, você tem que ter menos contato possível com pessoas. Se você tem que ir para outra cidade, o risco aumenta muito. Eu me vi nesse papel”, exemplificou.

Gazeta Regional

Fundada por Laerton Santos no início dos anos 2000, a GAZETA tem como principal missão integrar as dez cidades que compõem a região do Alto Tietê, tendo como diferencial o olhar crítico que define a linha editorial do veículo. Em busca de contato cada vez mais próximo com seu público, o jornal tem investido na cobertura diária, utilizando as mídias digitais para esse fim.

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