Espondilite anquilosante pode limitar a mobilidade

A estimativa é que, em média, sejam gastos até oito anos para o diagnóstico

Por Ana Karolina Bonfim (Especial para a GAZETA) / Fotos: Divulgação

Enfrentar uma doença por 14 anos é difícil de imaginar, mas essa é a realidade do educador físico Samuel Oliveira, de 41 anos. Em 2006, ele descobriu que é portador da espondilite anquilosante, uma patologia inflamatória crônica que afeta de 0,5% a 1,5% da população sem causas conhecidas.

Tudo começou quando Samuel percebeu inflamações no corpo e, três meses depois, já precisava recorrer ao apoio de uma muleta. Isso aconteceu porque a espondilite afeta a coluna vertebral e as articulações, comprometendo os membros inferiores (joelhos, quadris e tornozelos). O presidente da Sociedade Paulista de Reumatologia, Marcelo Pinheiro, explica. “Espondilo vem do grego e significa coluna, “ite” é inflamação, e “anquilosante” significa calcificação. Portanto, ocorre a calcificação da coluna vertebral”, define.

O caminho para o diagnóstico é duro na maior parte das vezes. A estimativa é que, em média, sejam gastos até oito anos para o resultado. Samuel conseguiu em seis meses, tempo repleto de consultas com médicos de diversas especialidades. “Foram seis meses, mas, para quem tem dor, seis meses é muito tempo. O diagnóstico trouxe a esperança para continuar na luta”, desabafa. 

De modo geral, o diagnóstico é baseado principalmente no relato do paciente. Exames de sangue também podem ser solicitados. O tratamento envolve medicamentos, atividade física e não fumar. “Quando não há resposta adequada, o reumatologista pode indicar outros medicamentos”, afirma Marcelo Pinheiro. 

Sem condições físicas para praticar musculação ou exercícios de impacto, Samuel encontrou na natação a “fórmula” para amenizar os sintomas. Hoje, ele tem acompanhamento multidisciplinar com um psiquiatra, que o ajuda a construir o suporte emocional para enfrentar os problemas acarretados pela espondilite; com um reumatologista, neurologista, ortopedista e nutricionista – todos empenhados em assegurar melhoria da qualidade de vida. “A espondilite me afeta muito e me mostra que a vida tem várias dimensões”, diz, em tom reflexivo.  

Os efeitos da doença

A espondilite anquilosante tende a trazer outras comorbidades.

O presidente da Sociedade Paulista de Reumatologia, Marcelo Pinheiro

“Os pacientes podem ter uveíte, ou seja, dor, vermelhidão no olho e a sensação de embaçamento que pode acontecer em surtos agudos que duram de sete a 14 dias. Com o tratamento adequado, ocorre a melhora desse processo inflamatório. Outra manifestação que esses pacientes podem apresentar é a psoríase. E, por fim, pode ocorrer a doença inflamatória intestinal, ou seja, os pacientes têm diarreia e dor abdominal. A diarreia, muitas vezes, com muco, uma espécie de um catarro nas fezes ou sangue. O médico tem que fazer o diagnóstico correto para saber se essa não é uma queixa relacionada um outro quadro, como a intolerância à lactose”, explica Pinheiro, que é professor de reumatologia da Unifesp.

Samuel teve complicação intestinal e precisou ser operado. Além das dores físicas, ele precisou lidar com as perdas. Muitos amigos se afastaram e só restou o apoio familiar. Ele também se queixa da falta de compreensão da sociedade. “Nossas dores são invisíveis, mas não são imaginárias”, acrescenta.

Embora a ciência ainda não tenha comprovado a causa exata do surgimento da doença, Marcelo Pinheiro aponta as linhas sobre as quais os cientistas se debruçam. “Sabemos que está relacionada a uma característica genética, dada pelo HLA B27, que seria um dos marcadores genéticos mais importantes nessa população. Mas nem todo mundo que tem o HLAB 27 positivo vai ter espondilite. Esse marcador está presente em 10% da população geral, mas apenas cerca de 2% a 5% dos pacientes que são positivos vão desenvolver a espondilite.”

Além da predisposição genética, há fatores ambientais que podem precipitar o surgimento da doença. Entre eles, a intercorrência de inflamação intestinal, o hábito de fumar e outras situações que prejudicam a saúde no dia a dia.  A espondilite causa impactos negativos na rotina.

O educador físico Samuel Oliveira

Samuel fala com orgulho do trabalho voluntário que realiza sobre a doença em redes sociais, ajudando pessoas que receberam o diagnóstico a se superar e a aprender a viver com a patologia. “Hoje eu me sinto realizado”, conta. Ele tem um site sobre o assunto: https://www.espondilitebrasil.com.br/

Gazeta Regional

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