Henry Borel e a violência doméstica no Brasil

Por Raquel Rondon

Muito se tem falado nos últimos meses sobre todas as incógnitas que pairam sobre o caso de Henry Borel, menino de apenas quatro anos, supostamente assassinado pelo padrasto Jairinho e por Monique, a mãe do garoto.  

Em depoimento prestado no último dia 08, o executivo da área de saúde do Estado do Rio de Janeiro, Pablo Menezes, afirmou que no momento da confirmação da morte do menino, o vereador que estava no hospital, lhe pediu por telefone: “vê-se dá atestado para gente levar o corpinho”.

O pedido, caso confirmado ser verdadeiro, fala muito sobre a cultura brasileira. De um lado, encontramos as questões de favorecimento (o famoso “jeitinho brasileiro”), que não acontece somente em altas classes sociais, mas também são encontradas quando o homem médio corta a fila da vacinação ou falsifica a carteirinha de estudante para pagar meia entrada no cinema.

De outro, a violência doméstica que teve um aumento significativo durante a pandemia pelo vírus Covid-19, em razão do necessário isolamento social. A “violência entre quatro paredes” emoldura o caso Henry Borel.

Embora a sociedade tenha evoluído, escorando-se na história, tem-se que os poderes legislativo, judiciário e executivo, tentam unir forças para impor medidas de combate à sociedade patriarcal enraizada no Brasil.

Na concepção grega, que deu origem a este cenário, o pai possuía mais poder que o Estado no seio familiar, podia agir por sua vontade, sendo seus dependentes obrigados a cumprir suas ordens. Além disso, os filhos eram classificados na relação de bens do pai e poderiam ser vendidos como mercadoria.

A designação de Pátrio Poder, que originou as Constituições Brasileiras até 1988 (menos de trinta e cinco anos atrás), advém deste período, quando o homem, o macho, era o ser que possuía controle absoluto sobre a vida e a morte da esposa, dos filhos e de seus escravos.

Desta forma, as comunidades tupiniquins evoluíram sem perder a ideia de que as decisões familiares dependeriam da opinião do pai, produzindo danosos efeitos sociais, tanto por homens e mulheres na criação de filhos(as), atitudes carimbadas com o selo de “respeito à tradição” seja cultural ou religiosa.

Traduzindo, hábitos que permanecem naturais não são, se os vermos como resultado da relação de poder.

Triste é que tragédias como estas são facilmente esquecidas pelo decorrer do tempo e não faladas com frequência como foi com Isabela, Bernardo e Ágatha, pois os mencionados “valores não são apenas válidos, mas também os mais apropriados, a verdade que se deve defender.”

Quero dizer que, para manter um sistema de família nos padrões antigos, valorizam os ideais de amor eterno e romântico, controle por ciúme, monogamia, etc.

Julgamos Monique por sua imparcialidade, mas o que não nos cabe julgar por ora, e que pouco se fala, é que existem indícios de que ela sofria, há tempos, violência física e psicológica perpetradas pelo namorado vereador e doutor, e em conversas recuperadas, afirmou que se sentia culpada, pois tudo que aconteceu derivou-se de suas escolhas.

De todo modo, qualquer pessoa que sofre qualquer tipo de violência doméstica, seja ela física, psíquica, sexual, moral, patrimonial, deve ter consciência de que, ainda que esteja em cárcere pelo isolamento social, não deve se sujeitar à qualquer dessas situações, porque existem meios para que a vítima seja preservada em sua dignidade humana.

Ela deve denunciar a agressão através do número 180 ou procurar a delegacia mais próxima, fazer a denúncia, requerer medida protetiva e, se necessário, será dirigida a núcleos de assistência social onde terá acesso a projetos de recuperação psicológica e afastamento do lar. Não se cale, denuncie!

Gazeta Regional

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