História em ruínas: Ferraz desiste de ‘seu Castelinho’, da década de 1940

Tombado como patrimônio histórico em 2000, o local está abandonado pela atual administração

Por Giovanna Figueiredo / Fotos: Bruno Arib

Um brasão familiar, anjos e uma mulher empunhando espada e escudo montada em um cavalo são algumas das pinturas em afresco que decoram o salão principal da Vivenda Zenker, mais conhecida como Castelinho de Ferraz. A construção do castelo é datada de 1948, no entanto, há muitas especulações de que a construção é anterior a isso.

Em 1919, Arthur Zenker, acompanhado de sua esposa Elisabeth Zenker e o filho Arthur Richard Zenker, na época com apenas um ano de idade, desembarcaram no Porto de Santos vindos da Áustria. Na época houve uma imigração em massa, por consequência do fim da Primeira Guerra Mundial.

Inicialmente a família morava em Itaquera, mudando posteriormente Ferraz de Vasconcelos. Um fato curioso é que Elisabeth era brasileira natural da Bahia, mas que evidentemente seria de descendência europeia, pois seu sobrenome de solteira era Staffen.

Arthur, o chefe da família, antes de morar em Ferraz fazia parte do quadro de funcionários do jornal “Diário Alemão”, que tinha como foco os imigrantes alemães. Quando se mudou para o Castelo, alterou também sua ocupação, tornando-se comerciante.

Além dos afrescos, azulejos, colunas, papel de parede e a tradicional torre remontam a uma arquitetura parecida com a europeia. No entorno do castelo muitas parreiras e outras árvores frutíferas.

PATRIMÔNIO – Em 2000, o local foi tomado como Patrimônio Histórico Material do Município, obrigando que o mesmo o preservasse e se necessário realizasse o restauro, mas sempre mantendo a arquitetura original. No entanto, não foi isso que aconteceu, e parte do Castelo foi derrubado para construção de UBS (Unidade Básica de Saúde), além de outras descaracterizações.

O ex-prefeito Jorge Abissamra, durante entrevista à GAZETA, contou que em sua gestão começou uma obra de reformas no local e que teria recebido uma quantia de R$ 900 mil para tal. “Eu comecei a reforma, tinha até contratado uma empresa italiana para restaurar os afrescos da parede, fiz o telhado, mas meu mandato acabou. Lembro que gastei entorno de R$ 150 mil. Para onde foi o restante do dinheiro? Isso é o que ninguém sabe.” Abissamra diz que o projeto era fazer uma biblioteca e um restaurante escola no local.

Vale ressaltar que quando um imóvel é tombado como patrimônio histórico, não podem ser feitas reformas, apenas restaurações para que a estrutura arquitetônica seja mantida. Desmembramentos e demolições também não são permitidas.

HISTÓRIA MAIS RECENTE – Segundo Mãe Gislene, líder do Terreno Caminhos da Pedras, em Mogi das Cruzes, no espaço também funcionou uma casa de Candomblé. “Hoje eu sou da Umbanda, mas antigamente frequentava o Candomblé e minha vó de Santo morava lá no Castelo, frequentei aquele lugar por 10 anos, era lindo”, contou.

Ela diz que a beleza do lugar sempre a impressionou e não acredita no que dizem as pessoas que moram no bairro do Castelo, que o lugar é mal-assombrado. “O povo diz muita coisa, mas eu não acredito. Acho aquele lugar lindo e tive bons momentos lá.”

SITUAÇÃO ATUAL – A GAZETA esteve no Castelo Zenker e a situação encontrada foi de abandono. Muitas sujeira e mato alto, além de rachaduras no chão e na parede. O entorno do imóvel está cercado de construções e não de uvas como anteriormente, há partes em que o teto está cedendo e os belos papéis de paredes vistos em fotos antigas já não fazem mais parte do cenário.

Apesar da beleza inegável, mesmo com toda a deterioração, o local precisa de atenção urgente, pois o patrimônio histórico está prestes a ruir.

Gazeta Regional

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