Jovem agoniza em Bertioga e é levada para morrer em Santos

Demora na transferência de um hospital a outro revolta familiares, que denunciam negligência e maus tratos

Texto e foto: Aristides Barros

O nome de Valdiceia Conceição da Silva, 21 anos, aumenta o número de denúncias de mau atendimento contra o Hospital Municipal de Bertioga, gerenciado pela INTS Instituto Nacional de Amparo à Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Gestão Pública), cujo valor milionário do contrato com a Prefeitura de Bertioga faz com que empresa e administração municipal se distanciem do serviço ansiado pela população da cidade e pelos parentes de pessoas que morrem dentro da unidade de saúde, ou na inevitável passagem por ela. 

São R$ 3 milhões/mês o valor do contrato firmado entre a Prefeitura de Bertioga e a OSS (Organização Social de Saúde). A duração do contrato é de dois anos e até o término do mesmo, caso não ocorra nenhuma alteração, a empresa receberá dos cofres públicos de Bertioga R$ 72 milhões. A empresa foi contratada em meados de 2018. 

O mau atendimento é denunciado pelos familiares da balconista Valdiceia, que junto a ela passaram quatro dias de horror no local até ela ser transferida para a Santa Casa de Misericórdia de Santos, onde morreu poucas horas após dar entrada na instituição médica. Ainda abalada, a família afirma que a morte aconteceu em função da demora na transferência da jovem para um local com melhores recursos. 

Levada para o Hospital de Bertioga na segunda-feira (2) expelindo sangue pela boca, ela permaneceu assim até a noite de sexta-feira (6), quando foi transferida para a Santa Casa de Santos já com a saúde piorada. Em Santos os médicos logo que viram a situação da jovem anteciparam aos pais. “O estado dela é muito grave. Vocês têm de estar preparados”, disse Maria Souza da Conceição, 48, mãe da balconista.  

Ela acompanhou a filha na ambulância. “Deixamos ela na Santa Casa e assim que chegamos em Bertioga avisaram pra gente voltar, porque ela tinha morrido”, disse a mãe. O tempo todo com a filha, nos momentos críticos – do Hospital de Bertioga a Santa Casa – Maria só chorou.

AGONIA

Na conversa com a reportagem a dor deu lugar à revolta e as lágrimas foram substituídas por palavras de protestos e desmentidos que transtornou mais a família. Pela versão da Secretaria de Saúde de Bertioga foi dito que a Valdiceia chegou no hospital na quarta-feira (4).

“Levamos na segunda-feira, ela ficou no quarto de observação de segunda até terça. Na quarta, quando piorou muito, é que a levaram para o isolamento. Pedi para ficar com minha filha para ela não passar a noite sozinha. Me negaram isso, disseram que por ela ser maior de idade não era permitido acompanhante. Mas, uma enfermeira falou que iria providenciar. Fiquei com ela e depois a namorada dela também ficou. Eu não estava suportando mais ver o sofrimento da menina. Ela estava com muita falta de ar e vomitava muito sangue”, relatou a mãe.

“O meu marido falou com o médico se não podiam transferir a menina pra uma clínica. Disseram que ela já estava sendo medicada e que iriam resolver o problema ali mesmo. Mas eles sabiam que ela ia morrer, estava muito mau. Eu não entendo porque não transferiram logo. Isso me dói muito. Eu perdi a minha filha”, contou Maria, que aniversariou no dia 10, três dias após a morte de Valdiceia.

FRIEZA

A mãe da balconista denunciou que foi destratada por um médico e por enfermeiras – que não soube identificar os nomes. “Eu poderia ter pego o nome dele pela receita quando indicou a medicação. Mas não fiz isso porque dizem que não pode fotografar nada dentro do hospital, senão faria com o celular”, disse Maria. 

Ela revelou que a medicação se resumia em Dramim, Buscopan e soro. “As enfermeiras me viam e comentavam entre si: ‘Essa é a mulher daquele caso’. Todas sabiam o que estava acontecendo porque eu pedia ajuda pra todo mundo, estava desesperada. Todos sabiam, mas não ajudaram a minha filha e ela morreu”, lamentou Maria.

Sobre o médico a mãe relata a frieza. “Lembro ele dizendo que não podia fazer mais nada porque ela estava com sangue no pulmão e não podia tirar.” 

Depois de tudo consumado, Maria recebeu o golpe final. “Entregaram para o meu filho a blusa dela cheia de sangue. Isso não se faz, devolver uma roupa cheia de sangue pra uma mãe. Quando vi a blusa dela daquele jeito me revoltou muito”, afirmou.

O pai, Vitor Santos da Silva, 55, disse que não pretende acionar o hospital na Justiça, até antevendo que “amanhã  pode precisar do mesmo hospital e isso pode atrapalhar.” Cauteloso, disse que se limitou a ir até o hospital e desabafar contra o que reiterou ter sido negligência do hospital. 

O QUE DIZ A PREFEITURA

A reportagem do LEIA contatou a Secretaria de Saúde de Bertioga, que por meio da assessoria de Imprensa da prefeitura responde.

“Segundo o INTS, que gerencia o Hospital de Bertioga, a paciente esteve no PA (Pronto Atendimento) em dias de meses intercalados, os últimos atendimentos ocorreram em 27/06, com queixas distintas do diagnóstico em (02/12 a 06/12).  

No mês de outubro, dia 1, foi verificada uma passagem pelo PA com queixas de vômitos.

A paciente teve passagem com maiores queixas e sintomas no dia 02/12. 

Foi observada a sua internação no dia 04/12, com diagnóstico de doença autoimune “Síndrome Goodpasture”.

Devido ao agravamento do quadro clínico, a equipe médica solicitou vaga de leito de UTI através da Cross (Central de Regulação) às 11h29 do dia 06/12. Após intensa busca e movimentação da equipe do INTS e Secretaria de Saúde a vaga foi cedida via sistema às 20h33.

Ressaltamos que o Hospital/ Secretaria de Saúde não possui governabilidade nem acesso às vagas em aberto de referência oferecida pelos serviços referenciados na Baixada Santista.

A paciente deu entrada no dia 02/12 às 15h34, onde foram feitos os atendimentos necessários, o que originou a internação no dia 04/12, devido à evolução do quadro clínico. 

Em todos os atendimentos, os pertences são devolvidos ao responsável e/ou familiar, por ser protocolo do hospital.

Gazeta Regional

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