Negra Li e a busca da batida perfeita

Por Pedro Chavedar / Foto: Pedro Chavedar

A Negra Li, oficialmente como Miriam, é uma das pessoas em situação de rua que conheço há mais tempo – aproximadamente desde 2014. Paulistana de nascimento e em Mogi das Cruzes desde 2004, nossa proximidade sempre foi muito grande.

Desde sempre, quando me vê, ela canta um trecho da música “Meu amigo Pedro” de Raul Seixas: “Pedro onde você vai que eu também vou” e cai na gargalhada.

Desde que nos conhecemos, Negra sempre se interessou por fotografia – em um determinado momento, cheguei a dar algumas aulas para ela, que não foram tão para frente assim. Seu apelido vem, obviamente, da rapper também paulistana, mas nunca tive uma explicação clara sobre o real motivo.

Negra Li sempre se mostrou uma mulher mais dura, fechada e na defensiva. Desde os 11 anos na rua por decisão própria e hoje com 37 anos, Negra Li diz que “dá trabalho, não trabalha”. Segundo ela, “falar de trampo dá dor no estômago”.

Hoje, seu único medo é de altura, “mas eu subo”, completa. De morrer, não tem receio algum. “A certeza da minha vida é a morte” disse. Sonho também não tem. “Não tenho sonho se não eu caio da cama”. Dinheiro não a conquista e o que tira seu sono são “os trouxas se matando por causa de porcaria”.

Para o futuro, não pensa em nada. “Quero o que tiver que acontecer” comenta. Negra Li sempre está na procura da batida perfeita, frase famosa nas músicas do rapper Marcelo D2 e lembrada pela paulistana. A vida dessa batalhadora é de altos e baixos. “Os altos é quando você tá respirando todo dia e os baixos quando você pensa que está no pedestal e cai” diz, com gargalhadas.

Questionei, em certo momento de nossa conversa, quem era ela: “Eu não sou ninguém”. 

Gazeta Regional

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