Novo transporte de Biritiba Mirim frustra a expectativa dos usuários

Veículo sucateado, pneus carecas e bancos escorados são alguns dos problemas encontrados

Por Giovanna Figueiredo / Fotos: Bruno Arib

Já esperou por algo muito tempo e quando aconteceu foi uma decepção? Isso é o que descreve a população Biritiba Mirim em relação ao transporte municipal. Antes de entrar no transporte, uma passageira disse a frase: “Tudo que é bom dura pouco”, e o restante quase que em coro completou: “Mas isso não é bom, então pode ser que dure.”

Após seis anos sem o serviço, há cerca de duas semanas o modal foi reimplantado, no entanto, veio acompanhado de problemas. Pneus carecas, passagem alta, falta de gratuidade para idosos, bancos quebrados e rasgados são alguns pontos alvos de reclamação dos passageiros.

Na cidade a reportagem percorreu bairros que fazem parte dos itinerários das linhas Verde e Amarela – Rio Acima e Santa Catarina, entre outros -, onde muitos moradores alegaram nunca terem visto a van circulando.

“Nunca vi o carro por aqui, mas para mim nem adianta. Tenho 80 anos e eles ainda querem cobrar a passagem. Não dá, e o meu direito?”, questionou Giolinda Cardoso, moradora do Rio Acima.

Ela contou que como o bairro faz divisa com Mogi das Cruzes, muitas vezes utiliza o transporte da cidade vizinha e, chegando lá, pega o intermunicipal e retorna para Biritiba. Todo esse trajeto dura cerca de 2 horas.

De volta à antiga rodoviária, ponto de saída e retorno das duas linhas, a equipe da GAZETA encontrou um grupo que aguardava a “jabiraca”, termo usado por eles para descrever a van que presta o serviço.

“Essa van é uma vergonha, pagamos R$ 4,50 para andar num carro que é perigoso e enferrujado, desse jeito podemos até pegar tétano”, relatou a moradora Clara Tavares de Morais.

O jornalista Cristiano Sandoval, morador do Casqueiro, disse que o transporte é necessário, mas precisa ter condições. “Ontem o das 18h não passou, sem contar que acabam rodando a cidade inteira com apenas uma van. O carro já quebrou duas vezes. Em São Paulo, por exemplo, pagamos R$4,30 para andar a cidade inteira em ônibus confortáveis e com ar condicionado.”

CONTRATO – A empresa Lírio do Vale assumiu o transporte na cidade em caráter emergencial, por um período inicial de 180 dias, sem que haja custo para a prefeitura ou repasse da transportadora para a administração municipal.

O contrato não está disponível no Portal da Transparência da prefeitura, como prevê a Lei de Acesso a Informação (nº 12.527/2011). A GAZETA solicitou o documento via assessoria de imprensa, mas a gestão do prefeito Walter Tajiri (PTB) se recusou em fornecer, alegando que só seria entregue mediante ofício protocolado no órgão municipal.

O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS – Procurada para se posicionar diante das reclamações da população, a prefeitura afirmou que os veículos estão em condições de permitir ao passageiro segurança e conforto, mas verificará os veículos operantes.

Sobre a gratuidade, a prefeitura alegou que a empresa, por força contratual e de lei, tem que garantir 10% da capacidade de acomodação do veículo para esta finalidade, ou seja, a cada viagem apenas um passageiro que tem esse direito pode usufruir dele, o que segundo a população não acontece.

Em relação ao valor da passagem a administração alegou ser necessário para fazer frente ao serviço prestado, uma vez que o percurso até os bairros mais afastados é longo e em estradas de terra. O órgão assumiu a precariedade das vias.

Já a empresa Lírio do Vale, através de seu proprietário Evandro de Oliveira, disse que a população precisa ter paciência. “Nem começamos a trabalhar e já tem reclamação, a população tem que entender que estamos buscando fazer o serviço da melhor forma. Passageiro é assim, eu sei porque eu já fui, sempre reclama.”

Em relação à gratuidade ele alegou que faz conforme a lei e orientou os motoristas a permitirem um passageiro por viagem. “Como não temos nenhum subsidio é complicado, a maioria da população que usa o serviço é de idosos e se não cobrarmos não conseguimos manter”, afirmou o empresário.

Quando questionado sobre como avalia a condição dos veículos, ele disse que procura “trabalhar com os veículos em ordem, os pneus, os bancos, limpeza, mas as estradas são de terra, o veículo fica sujo, não tem como”. Sobre o fato da quebra dos veículos ele alegou que se dá “em decorrência das péssimas condições das estradas”.

Estradas da cidade estão em péssimo estado

Não é de hoje que a população dos bairros mais afastados de Biritiba Mirim e até mesmo da região central reclama da situação das ruas e estradas da cidade. No entanto, os governantes acabam por usar isso como desculpa para não resolver o problema.

Quem endossa essa reclamação é o motorista do “novo” transporte municipal, João Pires, 49 anos. “As estradas estão péssimas, as vezes tem de passar devagarzinho, tem cada buraco, por isso o carro quebra.”

“A população se sente largada”, alegou Luiz Carlos Nascimento, morador do Rio Acima. Ele e outros populares do bairro reclamam dos inúmeros buracos e falta de manutenção da via.

Em sua resposta sobre as condições do transporte, a gestão do prefeito Walter Tajiri (PTB) admitiu o problema das vias, mas não apresentou solução.

Gazeta Regional

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