O olhar de uma futura jornalista negra sobre o futuro

Por Adna Oliveira

Um repórter negro da CNN foi algemado ao vivo enquanto cobria os protestos em Minneapolis no dia 29 de maio. Os atos foram motivados pela morte de George Floyd, um homem também negro morto por asfixia enquanto estava no chão, durante uma ação policial. O repórter era Omar Jimenez, correspondente da rede de TV americana. Nas imagens divulgadas pela emissora, é possível ouvir Jimenez perguntando tranquilamente aos policiais onde ele poderia ficar para fazer a transmissão. Minutos depois, um dos policiais dá “voz de prisão” ao jornalista. No momento da prisão, Jimenez questiona: “se importaria de me dizer por que estou sendo preso, senhor?”. E novamente: “por que estou sendo preso, senhor?”. Não se escutou nenhuma resposta.

Em contrapartida, Josh Campell, um repórter branco da CNN, também estava nas ruas de Minneapolis cobrindo as manifestações. Ao contrário de Jimenez, Campell teve uma experiência diferente: na ocasião, os policiais respondiam suas solicitações e ele teve permissão para prosseguir
com a transmissão.

Quando tive contato com esses relatos, instantaneamente pensei “poderia ser eu”. Eu questionaria o motivo de ser presa sem motivos. Assim como outros que, como eu, são presos “por engano”, perseguidos por seguranças “por engano”, “mortos por engano”, o engano: ser negro.

Os últimos acontecimentos me atordoaram. Não consigo contar um dia que não tenha chorado enquanto lia uma nota ou reportagem sobre o caso Floyd, mas também sobre João Pedro, o menino assassinado por policiais no Rio de Janeiro. Sobre esse último caso, certa vez cheguei a soluçar. Uma tristeza que sufoca, uma raiva que faz meu coração acelerar e ver que não importa a posição em que você esteja, se a sua pele for negra, sua vida é uma ameaça, você é considerado suspeito… Tudo isso me faz perder o ar.

Entre tantas questões, ainda em formação preciso me atentar ao futuro, mas nem sempre minhas preocupações são as mesmas de colegas brancos.

Enquanto eles pensam somente nas possíveis adaptações da profissão, preciso enfrentar o presente, o dilema de driblar o racismo para ter oportunidade no mercado de trabalho. Segundo o Censo da Educação Superior de 2017, cerca de 40% dos alunos de jornalismo são negros. Nas redações, só ocupamos 20% das vagas.

O que se diz por agora é que “representatividade importa” e que é importante ver pessoas negras ocupando os espaços que durante muito tempo foram exclusividade dos brancos brasileiros. Mas é difícil acreditar nessas palavras quando a própria CNN permitiu que William Waack, jornalista que trouxe a fala racista, realizasse a cobertura de protestos contra a discriminação racial. Um absurdo! A Rede Globo, por sua vez, levantou a pauta sobre racismo, mas cometeu o erro de convocar jornalistas brancos para discutir o assunto. Obviamente, após a pressão dos telespectadores, a emissora se desculpou.

Minhas preocupações? Ser ouvida e ocupar espaços.

É por razões como essas que nas coberturas de crimes raciais, no Brasil, a narrativa é superficial, minimizam-se os casos ou reproduzem-se estereótipos. Faz uma enorme diferença colocar na manchete que um jovem era “jovem” ou “suspeito”, por exemplo, ou dizer: “jovem foi morto em ação policial” e “jovem foi assassinado por policiais”. Se você percebe que uma manchete tem uma responsabilidade tamanha na construção das narrativas e das realidades, é urgente que se reflita um pouco mais sobre o que isso significa.

Minhas preocupações? Trazer e fazer uma leitura de mundo de identidade racial. É fato que questões comuns a todos os jornalistas também me atordoam, como o dilema do que dizer ou como agradar. Como mulher negra, não consigo fugir da necessidade de desnudar o racismo e demonstrar a ineficácia do Estado para essa operação.

Trabalhar para a construção de uma mídia antirracista é um dos meus objetivos, e acredito que isso só será possível por meio do jornalismo independente. As preocupações são tantas que fogem do campo somente jornalístico, de ética e apuração… Não vejo isso como problema para um bom jornalista. Caro Wagner, quando você cresce na periferia, aprende desde cedo que a bala é perdida, mas não é daltônica, ela escolhe a cor que vai acertar.

É por isso que como futura jornalista negra, confesso que minha maior preocupação é me manter viva. Volto a dizer: poderia ser eu.

Gazeta Regional

Fundada por Laerton Santos no início dos anos 2000, a GAZETA tem como principal missão integrar as dez cidades que compõem a região do Alto Tietê, tendo como diferencial o olhar crítico que define a linha editorial do veículo. Em busca de contato cada vez mais próximo com seu público, o jornal tem investido na cobertura diária, utilizando as mídias digitais para esse fim.

Nenhum comentário sobre: “O olhar de uma futura jornalista negra sobre o futuro

  1. Excelente artigo, parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*