O que é ser itaquaquecetubense

Série analisa o perfil do cidadão itaquaquecetubense. Fotos: Renan Xavier

 

Por Renan Xavier

De Itaquá

 

O município de Itaquaquecetuba é um dos mais pobres da Grande São Paulo. Com a segunda maior população do Alto Tietê – 356 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geogra­fia e Estatística (IBGE) -, a cidade é marcada pelas desigualdades sociais. No Mapa de Pobreza e Desigualdade dos Municípios Brasileiros, publicado pelo IBGE, em 2003, a incidência da pobreza alcançava 62,20% da população. Passados 13 anos, muitas coisas avançaram, mas ainda há quem sobreviva em condições de extrema carência, como nos casos a seguir.

 

Ser pai em Itaquá

CHAMA 3 - foto 2 @renanxavierSanto Amaro das Brotas, cidade do Sergipe onde Almeida nasceu, está tão distante em sua memória quanto no mapa. Hoje com 55 anos, o senhor de sorriso e lágrimas fáceis guarda uma recordação desbotada da própria família, que o rejeitou.  Ele foi expulso de casa com apenas 11 anos, por ser homossexual. Sem teto nem maturidade para tomar as decisões que a vida lhe apressava, rodou país adentro, consumindo drogas e aprendizados nas ruas até chegar a Itaquaquecetuba, onde construiu sua própria família adotando um jovem desconhecido.

A vida do sergipano mudou drasticamente quando uma criança lhe pediu um cigarro. Ele recusou o pedido ao jovem, um morador de rua de 13 anos, mas ofereceu algo em troca: abrigo. Foi assim que Almeida acolheu o rapaz como a um filho, que mais tarde lhe daria sete netos de consideração. Os mesmos netos que Almeida cria como um pai, sozinho, num barraco às margens de uma estrada de terra apinhada de detritos e entulho no bairro Piratininga.

Com o filho já adulto, casado e com sete filhos, Almeida migrou novamente, dessa vez para Praia Grande, onde morou por quatro anos. Quando soube da separação dos pais de seus netos e dos transtornos para as crianças, voltou para Itaquá, onde passou a cuidar sozinho das crianças, cujas idades já memorizou:  Adriano, tem 12 anos; Graziele e Bruna, 14; Carlos, o caçula, tem apenas 10. Os cinco moram sozinhos, sobrevivendo exclusivamente da renda de bicos e coletas de lixo feitos por Almeida. Após a separação, os pais tornaram-se ausentes e foram morar em outro lugar.

Analfabeto, negro, homossexual e nordestino, Almeida defende que a identidade de uma pessoa é determinada por seu caráter e rebate os estereótipos com orgulho e indiferença. Sua maior conquista é a família que construiu. Com a voz embargada de emoção e os olhos marejados, o vivido sergipano comemora o maior paradoxo de sua vida: “logo eu, que nunca aprendi o que era família com meus próprios pais, vim construir a minha em terras tão distantes, de um modo tão natural”.

 

Ser mãe em Itaquá

Especial Itaquá_Ser Mãe - foto @renanxavierHá seis meses, as águas negras e poluídas do Rio Tietê invadiram a casa da aposentada Maria Helena, de 73 anos. Não sobrou nada. Cama, roupas, objetos, eletrodomésticos e até as panelas foram contaminadas e arrastadas pelo fluxo. Na ocasião, Helena estava internada para tratar de uma pedra na vesícula e problemas cardíacos, então não pode evitar a destruição.

A aposentada mora com as cinco netas exatamente onde acaba a rua Joaquim Nabuco, na Vila Maria Augusta, e começa o trecho de águas correntes do Rio Tietê. As enchentes no local são comuns e forçam a idosa a uma vida de contínua vigilância e temores redobrados a cada chuva. “Não aguento mais viver aqui, meu sonho é encontrar outro lugar”, desabafa. “Aqui você luta para conquistar suas coisas, daí vem a enchente e leva tudo”.

O “tudo” a que Helena se refere é resumido no que é possível comprar com o valor de benefício social Bolsa Família, do Governo Federal, que chega a R$ 140 para cinco crianças, e sua aposentadoria, de aproximadamente R$ 800.

Com os magros rendimentos, Helena garante água, roupa, comida e escola para os netos. Segundo a idosa, os pais das crianças são ausentes na criação por não terem condições para o exercício.

Tudo quanto Helena conseguiu reconstruir em sua casa foi objetivo de doações e ajuda de vizinhos. Desde cama, colchões e máquinas de lavar e as roupas, desajustadas e curtas que vestem seus netos.

 

Ser invasor em Itaquá

Especial Itaquá_Ser Invasor - foto @renanxavierÀs margens do Rio Tietê, ergue-se a Vila Maria Augusta, um bairro parcialmente invadido que reproduz todos os problemas fundiários de Itaquaquecetuba. É no fundo deste aglomerado de casas, beirando as águas contaminadas e escuras que, há sete anos, o pedreiro João Neves divide três cômodos com seus dois filhos e esposa. Em todo esse tempo, presenciou inúmeros alagamentos de sua casa e destruição de móveis, roupas e objetos da família.

Cansado de esperar pelo poder público, há 20 dias o pedreiro decidiu construir um aterrado de 1,5 metros ao redor de sua casa, para prevenir alagamentos como o mais recente, do mês de março, quando o bairro ficou completamente alagado.

Ainda nessa ocasião, Neves avalia que a atuação da prefeitura foi tímida, embora tenha mobilizado os bombeiros. Após a enchente, a família não recebeu visita da Defesa Civil ou Assistência Social do município.

Questionado sobre a vida que leva, Neves não se queixou e até destacou que gosta da tranquilidade do lugar. “Só o que prejudica são as enchentes, mas entendo que isso não tem como evitar”, reconhece.

Para complementar a renda, o itaquaquecetubense também coleta lixos recicláveis. Todo o dinheiro vai para o sustento da família e investimentos na estruturação da casa. O pedreiro reconhece que há uma possibilidade de despejo, por se tratar de uma área de risco, mas afirma que enquanto estiver vivendo no local, fará o possível para garantir mais conforto à família.

 

 

 

Gazeta Regional

Fundada por Laerton Santos no início dos anos 2000, a GAZETA tem como principal missão integrar as dez cidades que compõem a região do Alto Tietê, tendo como diferencial o olhar crítico que define a linha editorial do veículo. Em busca de contato cada vez mais próximo com seu público, o jornal tem investido na cobertura diária, utilizando as mídias digitais para esse fim.

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