Origens de Itaquaquecetuba

Acompanhe a série de reportagens em comemoração ao aniversário de Itaquá, que traz histórias do município que tem cerca de 459 anos de existência

Por Claudio Sousa / Especial para a GAZETA

Itaquaquecetuba foi por vários séculos um aldeamento indígena. A tradição oficial afirma que em 1560, o padre jesuíta José de Anchieta fundou Itaquaquecetuba, sendo uma das doze aldeias em torno de Piratininga. Porém, não há documentação que sustente tal fato. Que os jesuítas andaram pela região é fato. Numa de suas cartas Anchieta afirma, em 1587, que a partir da vila de São Paulo de Piratininga visitavam as aldeias de São Miguel e a Nossa Senhora dos Pinheiros.

Mogi das Cruzes também teria sido fundada em 1560. O historiador Isaac Grinberg demonstrou no seu livro “Gaspar Vaz fundador de Mogi das Cruzes” que a região de Mogi começou a ser povoada em 1601, por moradores da vila de São Paulo de Piratininga. O ato oficial de elevação de Mogi à vila ocorreu em 1º de setembro de 1611. O Padre João Álvares foi um dos moradores de Mogi, redigiu o testamento de Francisca Cardoso, esposa de Gaspar Vaz, no seu leito de morte em 1611.

Vários moradores de Mogi solicitaram a concessão de terras (sesmarias) ao governo da capitania de São Vicente. Na sua solicitação, atendida em março de 1610, o Padre João Álvares declarou ser natural da vila de São Paulo, filho e neto de conquistadores da capitania, assistia e morava no Boigi Miri (Mogi das Cruzes). A terra solicitada para “suas milharada”, dizia estar devoluta (sem ocupação). A lei previa que a sesmaria deveria ser ocupada para ser confirmada. Em 1635, no pedido de confirmação, o padre João Álvares diz ter uma fazenda na paragem que chamam Taquaquecetiba.

Quanto aos índios administrados pelo Padre João Álvares, seriam de várias etnias, como guaianá e carijó, sendo estes últimos guaranis trazidos do sul. Uma indicação é a de que o padre João Álvares foi um dos capelães da bandeira de Nicolau Barreto que partiu de São Paulo em 1602 com o objetivo de capturar e escravizar índios no sertão (interior). Como retribuição de sua participação teria recebido sua parte em índios. Itaquaquecetuba era uma fazenda particular do Padre João Álvares que contava com mão de obra indígena sob sua administração. O padre foi vigário da vila de São Paulo e provedor da Santa Casa de Misericórdia da mesma vila.

Por volta de 1624, a Capela de Nossa Senhora da Ajuda estava concluída. Foi construída com o trabalho dos índios aldeados ou encapelados sob “administração” particular, termo utilizado na documentação da época para encobrir a escravidão indígena, considerada ilegal.

O Padre Simon Maceta, em 1630, afirmou que entre os bandeirantes da vila de São Paulo que atacaram as Missões dos Jesuítas espanhóis, estava uma companhia de escravos índios, tendo como capitão um índio da casa do clérigo Juan Alvares (João Álvares), vigário e cura desta vila.

Em 1670, a Capela do padre João Álvares já estava na posse dos padres da Companhia de Jesus, os jesuítas; que por sua vez, costumavam chamar de Aldeia da Capela. Há indícios de que a transferência não foi pacífica, envolvendo um conflito com os padres Beneditinos.

HISTÓRIA – Quando se conta a população de Itaquaquecetuba, deve-se levar em consideração que a área territorial sempre variou conforme a época. A informação mais antiga sobre a contagem da população vem da época dos padres jesuítas. No ano de 1722, os aldeamentos administrados pela Companhia de Jesus [Tacoaquicetiba, Mboy, Ytapicirica e Caarapucuhibá] “a de menos numero hé a Capella de N. Senhora d’Ajuda contratarão com os Reitores deste Collegio, plantar o mantimento de que nos sustentamos”. A “Lista da Gente da Capella da Tacoaquicetiba” registra 190 pessoas (a maioria índios) distribuídas em 53 fogos ou residências.

Quando os jesuítas foram expulsos pelo governo português, em 1759, o Padre José Martins dirigia a “Aldeia da Capela”. O aldeamento de Itaquaquecetuba ficou sob a administração de diretores e vigários nomeados pelo governo da capitania.

No ano de 1803, por decisão do governo os índios são reduzidos a “classe dos mais cidadãos”, extinguindo-se o nome de Aldeias e de índios, que ficam “sujeitos aos oficiais do Corpo de Ordenanças onde devem ser alistados na classe do povo”. De tutelados, os índios são incluídos na população comum, sujeitos ao recrutamento para as milícias.

De 1803 até 1832 Itaquaquecetuba é uma Freguesia da vila de Mogi das Cruzes, neste ano é rebaixado à Capela Curada. Em 1838 é restabelecida a Freguesia. Em 1845 são restabelecidos os Aldeamentos.

No ano de 1832 foram contadas 2.590 pessoas, divididas em: 1005 brancos, 102 índios, 1366 pardos e pretos livres, 117 pardos e pretos escravizados; distribuídos em 725 fogos e 8 quarteirões (abrangendo os bairros Guaió e Baruel).

No Recenseamento do Geral do Império, de 1872, havia 1878 pessoas, sendo 90 escravizados. Em 1875 havia 170 índios. No censo de 1920: 1.485 habitantes. O censo de 1950 contou 5.124 habitantes, sendo que 79,5% viviam na zona rural. Em 1980 a população era de 73.074 pessoas. A população total contada no último censo demográfico do IBGE (2010) foi de 321.770 pessoas. A estimativa para o ano de 2018 foi de 366.519 pessoas.

Bibliografia:

Arquivos: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Arquivo Nacional. IBGE. Prefeitura de Itaquaquecetuba. Museu Municipal de Itaquaquecetuba.

Acervos: Cláudio Sousa, Ângelo Guglielmo, Nenê Mariano, João Seleção, Sidney Barbosa.

Isaias de Carvalho, João Carlos de Moraes, Mauri Lima dos Santos, Miguel Nishimura, Nelson Pulgaci, Orlando Mitsuhazu Kusaba. “Trabalho Histórico e Estatístico de Itaquaquecetuba”, 1968.

Azevedo, Aroldo de. Os Subúrbios Orientais de São Paulo. São Paulo: 1945.

Vagnotti, Hyppolito Carlos. Relato sobre Itaquaquecetuba. São Paulo: 1987.

Andrade, Everardo de Oliveira et. ali. Memórias e Histórias de Itaquaquecetuba. Itaquaquecetuba: Orion, 2011.

Boletim do Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo. Maço 2, 1721-1804, Tempo Colonial. v. 5. São Paulo: Tip. do Globo, 1945

Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da cidade de São Paulo, 1977

Associação Cultural e Agrícola de Itaquaquecetuba.  A História da Colônia Japonesa em Itaquaquecetuba, 2007.

Grinberg, Isaac. Gaspar Vaz, fundador de Moji das Cruzes. São Paulo: [s.n.], 1980

Gazeta Regional

Fundada por Laerton Santos no início dos anos 2000, a GAZETA tem como principal missão integrar as dez cidades que compõem a região do Alto Tietê, tendo como diferencial o olhar crítico que define a linha editorial do veículo. Em busca de contato cada vez mais próximo com seu público, o jornal tem investido na cobertura diária, utilizando as mídias digitais para esse fim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*