Terreiro de Candomblé em Arujá faz festa para Boiadeiro

Momento único e sublime para seguidores da religião foi marcado pela alegria, paz e caridade

Por Gabriel Dias / Foto: Bruno Arib

A noite chegava com pouco de garoa naquele 30 de novembro, em Arujá. O dia não era comum para o povo do Candomblé, ao contrário, era um dia especial, de festa, muita música e muita comida, tudo com requintes do sertão antigo. A festa tinha um convidado especial e indispensável, o Boiadeiro.

Os filhos e filhas da casa de Candomblé de Arujá varriam minunciosamente o quintal. A babalorixá Alessandra (mais conhecida como Mãe de Santo do Terreiro) dava os últimos retoques para realização da festa. Do lado de fora sentia-se o cheiro do preparo do feijão tropeiro, o arroz, e tudo que seria entregue naquela noite de festa.

Por volta das nove horas da noite, ele, o Boiadeiro, o protagonista da festa, chegou em uma casinha preparada só para ele. Tinha berrante, chapéu, comida, e muitas folhagens verdes forrando o chão. Assim que Boiadeiro bateu em terra, podia-se ouvir de longe sua voz rouca, porém, grossa. Era o primeiro sinal de que a ‘entidade’ estava entre nós.

Dado alguns minutos de sua ilustre presença, ele foi embora, no entanto, era apenas o começo. A música começou a tocar, e as “Yawos” (mulheres feitas no santo) dançavam numa mesma coreografia, dando o tom da beleza frágil feminina ao evento que notoriamente era de estilo rústico.

Tempos depois, a babalorixá Alessandra foi para o centro da roda onde todos dançavam e cantavam. Alguns filhos e filhas passaram a segurá-la. Ela tremia como se estivesse com frio, e surpreendentemente de novo uma voz rouca, forte e muito falante soou entre todos que estavam ali. Notoriamente Boiadeiro bateu em terra, mas desta vez, para ficar por um longo período.

Assim que o protagonista da festa chegou, as pessoas batiam palmas sem parar de cantar nem mesmo sem perder o ritmo. Alegre, falante e metido a ‘cantador’, Boiadeiro animava os espectadores que admiravam sua vinda para o plano carnal.

Ele fazia rimas, dançava, abraçava e falava com as pessoas, dando conselhos únicos para quem ele sabia que não estava muito bem na vida. “Quero que vocês fiquem à vontade. A festa é minha, mas só vou embora amanhã. Hoje é dia de festa, de alegria”, dizia Boiadeiro ao público presente.

As horas foram passando, até que o chamado Ajeum (traduzido do Africano para ‘comer juntos’ em português) foi servido. A festa que começou às nove da noite só foi acabar às 6h da manhã. Foi por volta desse horário que o festeiro e amigo Boidaeiro sabia que precisava retornar para o plano espiritual depois de uma noite longa e animada. A cantiga de despedida começou a tocar, foi então que Boiadeiro se despediu, mas pronto para voltar ano que vem.

Gazeta Regional

Fundada por Laerton Santos no início dos anos 2000, a GAZETA tem como principal missão integrar as dez cidades que compõem a região do Alto Tietê, tendo como diferencial o olhar crítico que define a linha editorial do veículo. Em busca de contato cada vez mais próximo com seu público, o jornal tem investido na cobertura diária, utilizando as mídias digitais para esse fim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*