Uma droga chamada DEJEM

Por Ernesto Puglia Neto

A famigerada “droga” conhecida como DEJEM (Diária Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Militar) foi sintetizada nos laboratórios malignos do PSDB paulista em 2013 com a ajuda da sempre prestativa Polícia Militar, e surgiu como solução para dois problemas que estavam – e ainda estão – “matando” a segurança pública do Estado: os baixos salários dos policiais e a falta de efetivo.

Longe de ser original, é derivada de outra “droga” chamada DELEGADA. Essa fora produzida por laboratório parceiro do PSDB, também com a ajuda da Polícia Militar, para atacar um problema que era do município de São Paulo: a falta de efetivo para fiscalizar o código de posturas. A ideia era “contratar” policiais militares em seus horários de folga para que atuassem nos serviços municipais, remunerando-os diretamente, por meio de convênio.

O PSDB logo vislumbrou que essa “droga” poderia ser bastante útil, pois, ao contrário do município, o Estado é responsável direto pelo pagamento dos salários da PM. Portanto, ter a oportunidade de “viciar” os policiais em DEJEM seria um grande trunfo no futuro.

Os cientistas da PM, que sempre trabalham visando ao bem-estar da população, não se aperceberam desse efeito colateral terrível, que era a dependência do valor pago pelo Estado, tampouco de que isso seria, num futuro próximo, um diferencial gigantesco entre o salário do efetivo da ativa e o da reserva.

Mais ainda, não se aperceberam de algo que os malignos cientistas do PSDB já tinham vislumbrado: a própria PM ficaria dependente dessa “droga”. Com o efetivo reduzido, a PM buscaria cada vez mais recursos da DEJEM para alcançar a redução dos índices criminais, de acordo com os patamares estipulados pelo governo.

Vejam o ciclo de dependência se formando: o governo paga mal e não completa o efetivo; os policiais precisam do dinheiro extra e se submetem a trabalhar durante suas folgas para o próprio Estado, que deveria pagá-los bem para exercer essas mesmas funções no horário de serviço; a Polícia Militar não tem efetivo e pede cada vez mais vagas de DEJEM ao Estado para alcançar as reduções nos índices criminais estipuladas pelo governo; o governo estipula índices cada vez mais baixos, fazendo com que a PM necessite de efetivo extra para alcançá-los.

Está criada a dependência!

Muitos dos que defendem a distribuição dessa “droga” afirmam que é melhor obtê-la do Estado do que fazer com que o policial a procure nas ruas, clandestinamente, os bicos de segurança, por exemplo. Até concordo que, usada para momentos agudos, a “droga” é eficaz. Um policial que deseje comprar um bem ou fazer uma viagem de lazer poderia fazer uso da DEJEM até obter o resultado desejado. Ou, a Polícia Militar poderia usar a DEJEM para escalas extras em eventos esporádicos. O que nunca poderia ocorrer é o que vemos hoje, o uso da DEJEM para combater efeitos crônicos, fazendo com que o policial se socorra dela para conseguir colocar comida na mesa, e a Polícia Militar a utilize para realizar o policiamento ostensivo, enquanto o efetivo regularmente escalado realiza escolta de presos, por exemplo.

Hoje, nem a Polícia Militar, nem os policiais militares sobrevivem sem a DEJEM! E o Estado economiza duplamente: não paga salários dignos ao policial e não completa o efetivo da PM. O efeito colateral para o Estado: desgaste físico e emocional dos policiais militares, que leva ao afastamento temporário. Mas até desse efeito o Estado fica livre, pois os cientistas da Polícia Militar deram um jeito de não atingir o governo, criando regras de administração da “droga” DEJEM somente para aqueles que estão aptos ao serviço: ou seja, para poder fazer uso da “droga”, o policial deve estar apto, portanto esconde os efeitos colaterais, que acabam aparecendo somente quando não há mais como tratá-los, causando o afastamento prolongado ou definitivo, o erro de procedimento pelo estresse e, em casos mais graves, o suicídio ou o homicídio.

Essa “droga” é tão perversa que alterou, inclusive, a percepção do que é certo ou errado: antes dela, fazer bico era um ato de indisciplina; hoje é algo gerenciado e estimulado pelo próprio Estado.

Para realizar o “desmame” dessa “droga” seriam necessárias algumas medidas emergenciais:

  • aumento dos salários a um nível que possibilite ao policial militar usar a DEJEM somente em casos específicos e não de forma compulsória, para que consiga sobreviver;
  • reposição real do efetivo, pois o que se vê agora é a reposição do efetivo combinada com o aumento de unidades operacionais voltadas à repressão – os BAEP. O efetivo que deve ser recompletado é o da chamada radiopatrulha, que faz o policiamento ostensivo localizado, exatamente a função em que hoje se emprega grande parte do efetivo da DEJEM.

A pergunta que fica é: interessa ao Governo? A resposta é óbvia: não!

Por que contratar mais, se ele pode  usar as forças que tem, mesmo sabendo que, nesse ritmo, elas irão se exaurir? Por que pagar mais a todo efetivo, inclusive aos da reserva, se pode continuar pagando pouco e “comprando” o horário de folga do efetivo da ativa, já “viciado” em DEJEM, não importando o que essa prática gerará aos seres humanos que estão sendo literalmente usados?

O efeito da “droga” é tão eficaz para o governo, que ele oferece a seus dependentes “drogas” similares, de outros fornecedores. Assim, temos outras propostas de DEJEM: do judiciário, da CPTM, da Educação…

E, para comprovar que o governo não precisa se preocupar com isso atualmente, é só observar que os índices criminais caem mês a mês. Ou seja, os cientistas da Polícia Militar estão conseguindo fazer com que os “viciados” em DEJEM continuem trabalhando.

Talvez, se o caos se instalasse em São Paulo, o governo pensasse diferente. Mas isso, os cientistas da Polícia Militar nunca vão deixar acontecer! Portanto, continuaremos vendo policiais militares “DEJEM-dependentes” nas ruas. Eles são fáceis de ser identificados: geralmente estão de coletes refletivos, com olhar perdido ao longe, a fisionomia cansada e visivelmente estressados.

Esse é o desserviço que o PSDB tem oferecido há anos ao cidadão paulista!

Ernesto Puglia Neto é coronel da Reserva da Polícia Militar de SP e secretário-geral da Associação dos Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar (DEFENDA PM)

Gazeta Regional

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7 comentários sobre: “Uma droga chamada DEJEM

  1. Falou e disse. Retratou uma realidade que passa despercebida e que foi minuciosamente arquitetada

  2. Acredito que devemos sim ter nossa arma de fogo em casa como sempre existiu. Não tem nada a ver com a falta da vacina.. parece que vc estão atirando pra todo lado no propósito de atingir o Bolsonaro. Deixem o homem governar na paz, aí sim depois cobramos dele se não fizer nada.

  3. Aqui é a Fernanda Lima , gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

  4. Falou uma vdd quê passa despercebida,e quê infelizmente foi arquitetada minuciosamente
    Uma droga chamada DEM TEM MUITO SOFRIMENTO ATRÁS DE TUDO ISSO!!!

  5. Uma droga chamada DEM TEM MUITO SOFRIMENTO ATRÁS DE TUDO ISSO!!!
    Os policiais estão sobre carregados ,sem um salário digno pelo trabalho quê executa

  6. Uma droga chamada DEM TEM MUITO SOFRIMENTO ATRÁS DE TUDO ISSO!!!
    Os policiais estão sobre carregados ,sem um salário digno pelo trabalho quê executa
    Não estou repetindo nenhum comentários ,isto é o que vejo diariamente

  7. Cel

    Quanto custa aos cofres públicos as DEJEMs ao mês?

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