Virada: artistas mogianos se unem em protesto contra Temer e censura

Ao menos três grupos locais se posicionaram politicamente em palco; produtora do evento, segundo denúncias, tentou inibir a iniciativa. Fotos: Elias Martins Pereira

 

Por Renan Xavier

De Mogi

 

Noite de 28 de maio. O público lotava o Ginásio Municipal de Esportes Professor Hugo Ramos, no Mogilar, aguardando o início da segunda atração da Virada Cultural Paulista, realizada pela décima vez em Mogi das Cruzes. Atrás do palco principal, preparação: os integrantes do Coletivo Carta na Manga afinavam instrumentos e discursos, confeccionando cartazes contra o governo do presidente interino Michel Temer. Foi neste momento que uma produtora da Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) recomendou que eles não exibissem cartazes com mensagens políticas para “não se queimarem”, segundo relatam os músicos. “Vocês têm certeza que vão falar sobre isso?”, teria questionado.

Lívia Barros, vocalista do Carta na Manga, afirma que se sentiu assediada moralmente e qualifica o gesto como censura explícita. A cantora reconhece estar assustada com o “clima perigoso” pelo qual o país passa, mas garante que não se intimidará. Segundo ela, o Brasil sofreu um golpe que deve ser denunciado. “Nós não vamos nos intimidar. É importante seguir a luta denunciando esse governo ilegítimo”, declarou.

No dia 29, foi a vez da dupla As Lavadeiras se manifestar, criticando duramente a organização do evento. O protesto ocorreu durante a participação das artistas mogianas no show da cantora Karina Buhr. A dupla foi convidada para integrar a programação oficial da Virada, mas se recusou, num gesto de protesto contra o Governo do Estado de São Paulo.

“Nosso coração está em festa, mas não podemos esquecer que a gente está vivendo um golpe e que as consequências disso já estão interagindo com a arte”, alertou Karen Dias. Ontem, nossos amigos do Carta na Manga sofreram repressão, censura, aqui mesmo, neste palco”.

A outra integrante das Lavadeiras, Sarah Key, também replicou a denúncia de assédio moral sofrido pelos colegas. “Acabamos de sofrer um golpe e as consequências já estão reverberando. Ontem, rolou assédio moral. ‘Vocês têm certeza que vão falar isso?’ [referência à fala da produtora]. Sim! Nós temos certeza que nós vamos falar isso! Porque a gente sabe do lugar de onde a gente veio e sabe do lugar onde a gente está. Aqui, as Lavadeiras deixam bem claro, a gente se posiciona”, disseram, antes de concluir com o grito: “Fora Temer!”.

O Coletivo Suburbaque Maracatu também se posicionou contrário ao processo de impeachment, que definiu como um golpe. Com cartazes de “Fora Temer”, pela democracia e cultura popular, o grupo fez barulho ao ritmo das alfaias.

 

Intervenção

ABRE_Mogi_Virada Censura - foto 2 @eliasmartins pereiraO mais polêmico protesto da 10ª edição da Virada Cultural Paulista foi protagonizado pelo ator mogiano Rui Longo, que subiu ao palco durante apresentação do Coletivo Carta na Manga com um cartaz contra a “cultura de estupro”. O manifestante chegou a tirar parte das roupas. Foi retirado do palco sob aplausos do público e xingamentos dos seguranças.

Após a intervenção, a produtora teria ameaçado abertamente o grupo que se apresentava, afirmando que eles “não tocariam novamente em lugar nenhum”. Segundo Lívia Barros, o Coletivo Carta na Manga foi acusado pela funcionária do evento de facilitar o acesso de Rui Longo ao palco. Segundo os integrantes da banda, ninguém sabia que a intervenção seria realizada. “Fomos igualmente surpreendidos”, afirma Lívia, que, no entanto, ressalta não condenar a manifestação.

 

Outro lado

Em resposta oficial, a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo declarou que não trabalha com a diretriz de intervir nas apresentações, proibindo ou sugerindo a manifestação política de qualquer natureza. A pasta informou que entrou em contato com a produtora do evento responsável pelo palco principal, que negou ter orientado, assediado ou ameaçado os artistas que se manifestaram.

Procurada, a APAA, agência responsável pela Virada Cultural Paulista, afirmou que todos os esclarecimentos já tinham sido dados pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Gazeta Regional

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